quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Estar sozinho contigo



ESTAR SOZINHO CONTIGO


Estar sozinho contigo

Só tu e eu
Ora não me dirás sinceramente
Não é assim que deve ser?
Abraçarmo-nos com força
Durante toda a noite
Tudo está sempre bem
Quando estou sozinho contigo

Estar sozinho contigo
Ao final do dia
Somente contigo à vista
Enquanto a noite avança
Só vem mostrar
Que embora os prazeres da vida sejam raros
O único que conheço
É quando estou sozinho contigo
Dizem que a noite é a altura certa
Para se estar com quem se ama
Demasiados pensamentos intrometem-se durante o dia
Mas tu és sempre aquilo em que estou a pensar
Quem me dera que a noite estivesse aqui
Trazendo-me todos os teus encantos
Quando só tu estás por perto
Para me ter nos teus braços
Darei sempre graças a Deus
Quando o meu dia de trabalho termina
Tenho a minha doce recompensa
Estar sozinho contigo

BOB DYLAN, in NASHVILLE SKYLINE (LP), 1969, 
in CANÇÕES, Volume I (1962-1973),
 tradução de ANGELINA BARBOSA e PEDRO SERRANO
 (Relógio d'Água, 2006)
*
TO BE ALONE WITH YOU
To be alone with you
Just you and me
Now won't you tell me true
Ain't that the way it oughta be?
To hold each other tight
The whole night through
Ev'rything is always right
When I'm alone with you
To be alone with you
At the close of the day
With only you in view
While evening slips away
It only goes to show
That while life's pleasures be few
The only one I know
Is when I'm alone with you
They say that nighttime is the right time
To be with the one you love
Too many thoughts get in the way in the day
But you're always what I'm thinkin' of
I wish the night were here
Bringin' me all of your charms
When only you are near
To hold me in your arms
I'll always thank the Lord
When my working day's through
I get my sweet reward
To be alone with you


                                             Lola

Se eu morrer primeiro



SE EU MORRER ANTES DE VOCÊ

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor:
Chore o quanto quiser, mas não brigue comigo.

Se não quiser chorar, não chore;

Se não conseguir chorar, não se preocupe;

Se tiver vontade de rir, ria;
Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão;
Se me elogiarem demais, corrija o exagero.
Se me criticarem demais, defenda-me;
Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam;
Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo...
E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase:
-"Foi meu amigo, acreditou em mim e sempre me quis por perto!"
Aí, então derrame uma lágrima.
Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal.
Outros amigos farão isso no meu lugar.
Gostaria de dizer para você que viva como quem sabe que vai morrer um dia, e que morra como quem soube viver direito.
Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo.
Mas, se eu morrer antes de você, acho que não vou estranhar o céu.
"Ser seu amigo, já é um pedaço dele..."

Chico Xavier

Se eu morrer primeiro
 sei que abraçarás com o teu olhar doce 
o meu corpo já dormido
e 
ficarás comigo
 até ao nosso encontro,
decididamente, 
inadiável...

                                             Lola

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

FUNERAL BLUES



FUNERAL BLUES
 (Parem todos os relógios)

Parem todos os relógios, desliguem o telefone, 

Evitem o latido do cão com um osso suculento, 
Silenciem os pianos e com tambores lentos 
Tragam o caixão, deixem que o luto chore. 
.
Deixem que os aviões voem em círculos altos 
Riscando no céu a mensagem: Ele Está Morto, 
Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão, 
Deixem que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão. 
.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste, 
A minha semana útil e o meu domingo inerte, 
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha canção, a minha fala, 
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado. 
.
As estrelas não são necessárias: retirem cada uma delas; 
Empacotem a lua e façam o sol desmanchar; 
Esvaziem o oceano e varram as florestas; 
Pois nada no momento pode algum bem causar.

W. H. AUDEN, in OUTRO TEMPO 
|tradução de Margarida Vale de Gato| (Relógio d’Água, 2003)


*
(no original)
W. H. AUDEN, in ANOTHER TIME (Faber & Faber, 2007)

FUNERAL BLUES (Stop all the clocks)
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.


                                            Lola

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Sopa dos Pobres







Sopa dos Pobres

- “Srª empregada o que é o comer na cantina?”
-“Hoje é peixe…queres tirar a senha?”
- “Não…não gosto de peixe…”
Ouço repetidamente esta conversa entre miúdos na escola e eu que, por acaso, prefiro peixe a carne interrogo-me, num misto de curiosidade e estupefação,  o que comerão estes miúdos nas suas próprias casas…
E porque do existente se pode sempre fazer sobressair o bom e o mau, este pequeno diálogo transporta-me aos tempos idos da minha infância escolar vivida na bonita e envidraçada escola do Cerco do Porto.
Na década de 60 frequentava eu a referida escola e notava que a meio da manhã chegava um camião com panelas gigantes que envolvia um cheirinho apetecível de uma sopa que eu pensava ser universal.
Com efeito, uma simples sopa que, por vezes, é rejeitada e pouco apetecida por nós, tornava-se naquela época um pequeno obstáculo entre os meus sentires de criança e a escola do qual eu sempre gostei de forma desmesurada.
Num dos primeiros dias que me apercebi da distribuição da sopa, coloquei-me ingenuamente na fila quando, à entrada da cantina, a funcionária com tom austero me disse: “A sopa não é para ti…”
Nesse dia regressei da escola a chorar…lembro bem a tristeza que senti por não me deixarem participar de um “meio almoço” que também eu desejava partilhar com os meninos da Escola do Cerco.
A minha mãe, sempre atenta ao modo como eu encarava a escola e àquilo que eu aprendia., lá ía consolando as minhas lágrimas de menina mais emotiva e menos racional e …
…num determinado dia foi falar mesmo com a professora D. Isolina (chegada ao Porto vinda de Cinfães para acompanhar o marido, médico num dos hospitais da cidade) para que esta possibilitasse a minha inserção no grupo dos meninos contemplados pela sopa, ainda que tivesse que “pagar alguma coisa”. Soube nesse mesmo dia que a sopa tinha um nome -  “Sopa dos Pobres” - e que era apenas destinada aos meninos pobres que não tinham de comer em casa. No fim da sopa, era distribuído um molete que eu alegremente trazia para casa com uma satisfação que ainda hoje me faz pensar demora e sorridentemente.
Volvidos cerca de cinco décadas eu olho a escola com outras preocupações mas com a mesma emoção. Já não há a “Sopa dos Pobres” mas não são raros os casos em que a escola se coloca na retaguarda de fornecer refeições (para casa) a alguns alunos muito carenciados. Já não há a discriminatória e infeliz divisão nas salas em três filas de alunos: os bons, os médios e os burros…mas há meninos a quem a escola não lhes diz absolutamente nada e que é difícil aceitarem que esta é um trampolim para a vida que está lá fora. Já não há brincadeiras e correrias saudáveis mas sim olhares pregados num telemóvel que os transporta a um mundo que eu, sinceramente, desconheço, mas que, de forma alguma, invejo…Hoje, tenho de, por vezes, desdobrar-me entre os conteúdos de um programa com os quais nem sempre concordo e o apoio ao aluno que sofre de ansiedade, à aluna que foi deixada pelo namorado e chora copiosamente  ou mesmo àqueles alunos que ninguém quer integrar em trabalhos de grupo…
Hoje os desafios são múltiplos e complexos. Mas é muito bom recebê-los cada manhã…sentir a sua mundividência…o seu lado divertido e descomprometido com a vida!
Sou orgulhosamente Professora…
Professora de Filosofia…
Professora de Filosofia de um Agrupamento de Escolas onde se constroem futuros (que eu acredito  serem) de Esperança!





Lola

domingo, 6 de janeiro de 2019

OS 3 REIS MAGOS



OS 3 REIS MAGOS E A ESTRELA DE NATAL

Era uma vez uma estrela muito brilhante...cintilava mais que todas as outras e parecia até mover-se no céu...
No Oriente vivia um Rei chamado Belchior. Certa noite, olhava o céu estrelado quando lhe pareceu ouvir uma voz...mas não via ninguém. Reparou melhor naquela estrelinha brilhante e, qual não é o seu espanto quando ouviu:
- Sim, sou eu que te estou a chamar...
- Mas tu és uma estrela...embora pareças especial...
-E sou...fui escolhida para indicar a todos que nasceu o Menino
-O Menino?...Que Menino?...
- O Menino Jesus...nasceu num estábulo em Belém...
-E esse Menino é um Príncipe?
- Não...ele é filho de Maria e José, é muito pobre, e nasceu num estábulo, perto de um burro, de uma vaca e de alguns outros animais...
- Pois, não sei explicar porquê, mas sinto que posso ajudar esse Menino. Vou levar-lhe ouro..., mas, como faço para lá chegar?
- Não te preocupes...segue-me e lá chegarás...
E assim foi...pelo caminho, encontraram outro Rei, chamado Baltazar. Este, admirado com o brilho daquela estrela perguntou:
-Onde vão, nesta noite de paz em que parece ouvir-se anjos a cantar?
-Vamos ver o Menino - disse Belchior
- O Menino?...
-Sim...Jesus, que nasceu em Belém...
-O Menino que nos vem ensinar a Paz. o Amor...e tantas outras coisas importantes
para sermos felizes...- disse a Estrela
- ...E fazermos os outros felizes...- disse Belchior
- Quero visitá-lo! Vou levar-lhe incenso...
- Vem - disse a Estrela - segue-me e lá chegarás...
Continuaram, por algum tempo, até que ouviram alguém chamar:
Esperem...esperem...ouvi dizer que vão ver o Menino e entregar-lhe ofertas que o podem ajudar...eu tenho mirra para lhe levar...mas não sei como lá chegar...
Não te preocupes- disse a Estrela - segue-me e lá chegarás...

E assim foi...viajaram dias e dias, noites e noites, sempre acompanhados pela luz da estrela que mostrava exactamente o lugar onde Jesus nascera. Ao aproximarem-se viram outras pessoas que também seguiam aquela luz para visitarem Jesus. Pastores e camponeses levavam aquilo que podiam para partilhar com aquela família pobre que estava em Belém...comida, mantas para se aquecerem...mas também não tinham muito para oferecer, aquelas pessoas...
Finalmente chegaram... Os 3 Reis Magos entraram naquele lugar e, de repente, os seus corações encheram-se de Alegria e sentiram uma Paz imensa ao verem o Menino que dormia nas palhinhas, junto da sua família... a Estrela, sobre o telhado do estábulo, parecia sorrir e brilhava agora mais do que nunca...



Ana Margarida Barreiros



Lola

Inquietação





Inquietação



A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei

Com tantas guerras que travei

Já não sei fazer as pazes


São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha


Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda


Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda


Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda


Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda


José Mário Branco



                                            Lola

BALADA DE SEMPRE




BALADA DE SEMPRE


Espero a tua vinda 

a tua vinda,
em dia de lua cheia.
Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...
Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...
Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!
Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...


FERNANDO NAMORA, in RELEVOS 
(Tipografia Louzanense. 1937)


                                            Lola