Tenho uma Grande Constipação Tenho uma grande constipaçãoE toda a gente sabe como as grandes constipaçõesAlteram todo o sistema do universo, Zangam-nos contra a vida, E fazem espirrar até à metafísica. Tenho o dia perdido cheio de me assoar. Dói-me a cabeça indistintamente. Triste condição para um poeta menor! Hoje sou verdadeiramente um poeta menor. O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas! As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando. Não estarei bem se não me deitar na cama. Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física! Preciso de verdade e da aspirina. Alvaro de Campos
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido, Olho e contenta-me ver, Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio, Aqui, acolá, acorda a vida marítima, Erguem-se velas, avançam rebocadores, Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto. Há uma vaga brisa. Mas a minh’alma está com o que vejo menos. Com o paquete que entra, Porque ele está com a Distância, com a Manhã, Com o sentido marítimo desta Hora, Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea, Como um começar a enjoar, mas no espírito.
Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma, E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
Os paquetes que entram de manhã na barra Trazem aos meus olhos consigo O mistério alegre e triste de quem chega e parte. Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos. Todo o atracar, todo o largar de navio, É – sinto-o em mim como o meu sangue - Inconscientemente simbólico, terrivelmente Ameaçador de significações metafísicas Que perturbam em mim quem eu fui…
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! E quando o navio larga do cais E se repara de repente que se abriu um espaço Entre o cais e o navio, Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, Uma névoa de sentimentos de tristeza Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas Como a primeira janela onde a madrugada bate, E me envolve com uma recordação duma outra pessoa Que fosse misteriosamente minha.
Era, mais uma vez, de rotina matinal, porem a tarde revelava-se, para Rita e Pedro, uma sequência de momentos diferentes dado que iriam a uma conferência da empresa onde trabalhavam hà vàrios anos.
Eram amigos, demasiadamente amigos! De uma relação genuina, com respeito de olhares e interpretação de gestos desinteressados mas sem serem, de modo algum, desinteressantes!
Rita tivera uma vida amarga de saudade em perdas irreparaveis, vivera momentos de violência em palavras rudes e gritos estridentes que de tão inesperadamente fortes tinham deixado marcas na alma de quem apenas gostava de paz e sorria a momentos de serenidade que cada vez mais iam rareando na sua vida desejavelmente pacata e sem sobressaltos. De Pedro pouco sabia mas também era o que menos a perturbava. Bastava-lhe saber que em determinados momentos ele estava ali num apoio incondicional, por vezes, silencioso, mas que engrandecia a força que Rita nunca encontrara em ninguém! Lembrava-se, perfeitamente, do primeiro dia que o vira entrar pela porta da empresa com ar de insegurança face a um mundo diferente, longinquo e desamparado! Notara-o porque teriam de partilhar a mesma secção da empresa que ela chefiava e isso obrigaria a contactos permanentes em termos profissionais! Um dia coincidiram num momento de pausa para almoço e falaram de aspectos da vida pessoal sem limitações de linguagem ou de expressão de afectos, alguns jà dolorosamente passados e parcialmente apagados! A partir dai não mais voltaram a esse quadro de vida passada e presente o que de certo modo elevava uma relação interessante mas totalmente impossivel de adjectivar com palavras fixas, seguras e limitadas! O dia manteve-se soalheiro e... ... foi sorrindo ainda mais quando, no inicio da tarde, juntos, partiram para a reunião profissional que demoraria um percurso de conversa espontânea, variada, animada, cumplice e verdadeiramente envolta em improvisos e gargalhadas. Rita sentia-se profunda e delicadamente liberta de uma pressão que tanto a sufocara em amarras que ela propria, no seu intimo, nunca aceitara e que, por isso mesmo, se pintaram, muitas vezes, em làgrimas de um amargo incolor. Naquele dia era diferente! Sentia-se segura, apoiada, comoda e serenamente acompanhada num diàlogo que hà muito se notava ter mais de comum que de distancia em relação ao mundo e à vida. Quase sem dar por isso chegaram ao espaço reservado e ali mesmo, passadas as formalidades inevitaveis, pousaram demoradamente o olhar e estenderam o momento pela paisagem num cigarro que se tornou a unica testemunha de uma tarde agradavel e que deslizava delicadamente pelos recantos do espaço sumptuosamente decorado e magestosamente localizado na colina do casario que se deitava, mesmo ali à sua frente! E porque o momento convidava, antes mesmo do evento profissional, afinal o unico objectivo deste percurso alegremente partilhado numa cumplicidade invulgar, Rita e Pedro tomaram um "drink" não desistindo de continuar a conversa agradavel e do olhar comprometido com a envolvência que descia de modo geometricamente equilibrado até ao rio da parte velha da cidade! Momento a momento o tempo foi deslizando num regresso agradavelmente partilhado em dialogo de palavras abertas e fluidas, saltitando de tema em tema como que se não houvera outro momento tão prazeroso! Chegados, Rita deu um beijo a Pedro e agradeceu os momentos continuados de uma serenidade hà muito arredada da sua vida. Para Pedro este teria sido, provavelmente, apenas mais um dia, mas isso, para ela, não fazia diminuir a solenidade e elevação de estar com uma pessoa interessante, integra e serenamente maravilhosa! E isso, sim, era demasiadamente importante para que Rita procurasse ler sentires e pensares que não o seu! Por isso... ... quando a viagem parou devagarinho, Rita não olhou para tràs e caminhou apressadamente como que ainda perseguida pela temerosa intranquilidade de tantos anos! Pedro fez a viagem de regresso... ... e a cidade, là longe, adormecia suave e delicadamente sem saber ter sido, nesse dia, a anfitriã privilegiada de um dos momentos mais doces e suaves da vida de Rita!
Nessa noite,
Rita adormeceu abraçada a esta balada... Ao fundo do quarto um guarda chuva amarelo teimava em desiquilibrar-se e na mesinha redonda, mesmo ao lado da sua cama, um sabonete cuidadosamente embrulhado em papel colorido olhava-a num cheirinho a PHILOSOPHIA!