sábado, 8 de dezembro de 2018

AQUELE BREVE SORRISO




AQUELE BREVE SORRISO

Aquele breve sorriso

Que a tristeza entendeu,

No ar já tão impreciso
Que já nascendo morreu.
De que veio esse sorriso?
Porque é que ele foi meu?


Não me lembra que lembrança
Por acaso o alumiou,
Ou se foi fé a ‘sperança
Que nele me clareou.
Fui um momento a criança
Que morri e não voltou.

Ah, fugidia doçura
Do que nem se descobriu,
Nuvem negra da amargura
Que a lua cobre, e a cobriu.
Fica lembrança e ternura
Do que não se possuiu.

Tiveste a vaga doçura
Do que nesse mundo fugiu.
Na memória ao menos dura,
Sorriso porque sorriu."

Fernando Pessoa,
28-11-1924
In Poesia 1918-1930



                                           Lola

MADRIGAL PARA DEPOIS




MADRIGAL PARA DEPOIS

Quando, por fim, o mundo for só nosso,
Sem reparos alheios,

E os meus versos a fiel legenda

De cada hora,
Saberás, musa, claramente
Como a vida dura
Para além da macabra certidão
Da realidade.
Pede, pois, com fervor,
À santíssima senhora
Da boa morte
Que, sem mais sofrimento
Piedosamente,
Me receba nos braços regelados,
E nos permita ser eternamente
Felizes e secretos namorados

Miguel Torga


                                            Lola

No Sorriso Louco das Mães



No Sorriso Louco das Mães


No sorriso louco das mães batem as leves 

gotas de chuva. Nas amadas 
caras loucas batem e batem 
os dedos amarelos das candeias. 
Que balouçam. Que são puras. 
Gotas e candeias puras. E as mães 
aproximam-se soprando os dedos frios. 
Seu corpo move-se 
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões 
e órgãos mergulhados, 
e as calmas mães intrínsecas sentam-se 
nas cabeças filiais. 
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado 
vendo tudo, 
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte. 
E bate-lhes nas caras, o amor leve. 
O amor feroz. 
E as mães são cada vez mais belas. 
Pensam os filhos que elas levitam. 
Flores violentas batem nas suas pálpebras. 
Elas respiram ao alto e em baixo. São 
silenciosas. 
E a sua cara está no meio das gotas particulares 
da chuva, 
em volta das candeias. No contínuo 
escorrer dos filhos. 
As mães são as mais altas coisas 
que os filhos criam, porque se colocam 
na combustão dos filhos, porque 
os filhos estão como invasores dentes-de-leão 
no terreno das mães. 
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, 
e atiram-se, através deles, como jactos 
para fora da terra. 
E os filhos mergulham em escafandros no interior 
de muitas águas, 
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos 
e na agudeza de toda a sua vida. 
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, 
e através dele a mãe mexe aqui e ali, 
nas chávenas e nos garfos. 
E através da mãe o filho pensa 
que nenhuma morte é possível e as águas 
estão ligadas entre si 
por meio da mão dele que toca a cara louca 
da mãe que toca a mão pressentida do filho. 
E por dentro do amor, até somente ser possível 
amar tudo, 
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor. 

Herberto Helder,
Excerto do poema Fonte, publicado em A Colher na Boca, 1961

                                           Lola

A Professora




A PROFESSORA


Ali sentada a olhar para a Praça, Maria era a imagem da desilusão. Depois de algumas horas de autocarro chegara, por mim, ao destino. Terra seca, casas velhas, gente pobre.
 — Espera alguém? — perguntou o dono do Café mirando-a de alto a baixo. 
— Não, não espero ninguém. Sou a nova professora. Onde é o Hotel? Não há? 
— Não senhora. Nem Hotel nem Pensão nem nada onde possa ficar. A casa que lhe destinam está pronta mas sem mobília, sem eletrodomésticos. Pela conversa do Presidente só para a semana terá condições para a receber. 
Pode tentar a Casa Paroquial mas o padre não gosta que lá pernoite ninguém. A menos que a senhora não se importe de ficar na minha casa. Sou viúvo, moro com uma irmã… disse Luciano, o dono do Café, ajeitando o colarinho e afagando a barba. Ao jantar mal se olharam e a conversa, breve, morreu à hora das notícias. Foi assim também no dia seguinte mas, com a curiosa irmã de Luciano a insistir nas perguntas, deu consigo a falar de si, da vida, daquele verdadeiro exílio que aceitou para continuar a ter trabalho. — A terra é pequena e desajeitada como já percebeu e quase só há velhos por aqui. São raras as crianças, como verá quando lhes for dar as aulas… 
O meu Luciano, por exemplo, está viúvo vai para três anos e não acha quem mereça um olhar mais sério. Alguém como a senhora seria bem-vinda à nossa casa, à vida dele que bem precisado anda de companhia. — Cala-te, Lucinda, não vês que incomodas a senhora professora? — Trate-me por Maria, pediu ruborizada, intimamente alegre com o rumo da conversa. 
Quando a casa finalmente ficou pronta, Luciano fechou o Café para a ajudar na mudança. Juntos decidiram sobre a melhor utilização dos espaços. Olhavam-se demoradamente, tocavam-se como que por acaso e, ao fim do dia, ele disse--lhe: — Sou homem de poucas falas e nenhum jeito para declarações de amor. 
O certo é que a Maria me agrada e tudo indica que lhe não sou indiferente. Casa comigo?

Ela aceitou.


EDGARDO XAVIER, 
in LOENGO |contos| (Modocromia, 2018)


                                            Lola

Em Todas as Ruas te Encontro

Em Todas as Ruas te Encontro



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura


que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny
in "Pena Capital"

                                           Lola

Vozes do Mar





VOZES DO MAR


Quando o sol vai caindo sobre as águas 
Num nervoso delíquio d´ouro intenso, 
Donde vem essa voz cheia de mágoas 
Com que falas à terra, ó mar imenso?


Tu falas de festins, e cavalgadas 
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas 
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d´epopéias? Tens anseios 
D´amarguras? Tu tens também receios, 
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?... 
Talvez a voz do Portugal antigo, 
Chamando por Camões numa saudade!
.
Florbela Espanca,
"A Mensageira das Violetas"



                                           Lola

O Recreio




O Recreio


Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...


- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

Mário de Sá-Carneiro


                                            Lola