domingo, 7 de julho de 2019

Lembra-te






Lembra-te


Lembra-te 
que todos os momentos 
que nos coroaram 
todas as estradas 
radiosas que abrimos 
irão achando sem fim 
seu ansioso lugar 
seu botão de florir 
o horizonte 
e que dessa procura 
extenuante e precisa 
não teremos sinal 
senão o de saber 
que irá por onde fomos 
um para o outro 
vividos 



Mário Cesariny, 
in "Pena Capital"




                                               Lola

Procuro-te



Procuro-te


Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 


Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido. 



Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 



Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 



Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 



Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 



Eugénio de Andrade, 
in "As Palavras Interditas" 

                                                Lola

Estórias de Mulheres...




Estórias de Mulheres...


"A Maria é professora. E também é estúpida.
Ela sabe que é estúpida porque o João, o seu marido, lho diz. Explica sempre tudo o que a Maria expressa. E o João sabe o que diz. O João não tem nenhuma formação específica e prefere o café ao trabalho. Mas o João não é estúpido porque é homem e homens não são estúpidos.

A Raquel tem 50 anos. A Raquel é velha.

Ela sabe que é velha porque o Pedro, o seu companheiro, a esclarece com frequência. Aponta-lhe os cabelos brancos, as rugas no rosto, a flacidez das mamas. O Pedro tem 55 anos. Tem cabelos grisalhos, duplo queixo e a barriga já lhe encobre a pouca masculinidade. Mas o Pedro não é velho porque é homem e homens não envelhecem.


A Filipa é estudante. E é puta.
Ela sabe que é puta porque o Miguel, o seu namorado, lho explica. Às vezes com manifestações físicas: já lhe rasgou o decote de um top, já lhe esfregou o batom pelo rosto, já a proibiu de usar certas saias.
O Miguel implora sexo a tudo o que mexe, oferece-se em praça pública, exibe-se em tronco nu. Mas o Miguel não é puta porque é homem e homens não são putas.

A Bárbara é uma mulher realizada. E é infeliz. Ela sabe que é infeliz porque a Joana, a sua mãe, a informa constantemente. Precisas de alguém que te faça feliz, repete. A Joana é casada com o Raul, pai da Bárbara. O Raul é um adúltero que se diverte a abusar psicologicamente da Joana. Continua casado por cobardia. Sente um desprezo natural pela inércia da companheira. Mas a Joana não é infeliz porque 'tem' um homem e quem 'tem' um homem não é infeliz."





A Isabel está casada há quase 25 anos. A Isabel tem um marido que nunca a traiu e que a respeita. Os dois construiram uma cumplicidade, uma empatia e um Amor que sobreviveu às provas mais duras porque se fortaleceu nelas e se alimentou nas fases mais apaixonadas. A Isabel tem quase 50, mas o Marido continua a amar cada centímetro do seu corpo, a elogiar o seu peito e a gostar de a ver vestida com roupas que realçam a sua feminilidade. A Isabel tem um marido responsável por metade das tarefas em casa, que ama incondicionalmente os seus filhos e que sempre respeitou a sua independência e carácter. A Isabel sabe que o seu marido arriscou tudo para ter uma vida melhor e que o fez com o intuito de a ter ao seu lado, sempre. A Isabel sabe que o seu marido faz amor com ela da mesma forma que sempre fez, com paixão, com entrega, com a preocupação de que o prazer dela é tão ou mais importante que o seu. A Isabel ama o seu marido. Ela sabe que há Homens e que há homenzinhos. O marido da Isabel acha o machismo tão absurdamente estúpido quanto o feminismo bacoco, e lamenta que se realce sempre os maus exemplos sem mostrar os bons. Acha que a verdadeira instrução deve ser dada com a contraposição do que está errado com o que é certo, porque falar apenas do errado não é educativo per se.



                                                Lola

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Canção de Engate




Canção de Engate

Tu estás livre e eu estou livre

e há uma noite para passar

porque não vamos unidos
porque não vamos ficar
na aventura dos sentidos
Tu estás só e eu mais só estou

que tu tens o meu olhar

tens a minha mão aberta
à espera de se fechar
nessa tua mão deserta
Vem que o amor

não é o tempo

nem é o tempo
que o faz
vem que o amor
é o momento
eu que eu me dou
em que te dás
Tu que buscas companhia

e eu que busco quem quiser

ser o fim desta energia
ser um corpo de prazer
ser o fim de mais um dia
Tu continuas à espera

do melhor que já não vem

e a esperança fio encontrada
antes de ti por alguém
e eu sou melhor que nada
Vem que o amor

não é o tempo

nem é…

Tiago Bettencourt







https://www.youtube.com/watch?v=0J9z9kC6B4s




Se soubesses, Pedro que há dias que eu me enrolo na noite, sentindo-te em palavras que têm, exactamente, este sabor....



Tu estás só e eu mais só estou
que tu tens o meu olhar
tens a minha mão aberta
à espera de se fechar...



                                                Lola

A Noite Passada





A Noite Passada 



A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste



A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos


A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

Sérgio Godinho









                                                Lola

domingo, 5 de maio de 2019

Sê


 Sê



Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,

Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,

Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.



Pablo Neruda


                                             Lola

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Viagem


Arouca


Viagem

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse: “Não há mais o que ver”, sabia que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”

José Saramago

Arouca
Lola