domingo, 25 de agosto de 2019

A UM TI QUE EU INVENTEI



Arouca, Serra da Freita.



A UM TI QUE EU INVENTEI


Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.


Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça,
que apenas com o pensar te pudesses partir.


ANTÓNIO GEDEÃO,
 in "POESIA COMPLETA"
 (Ed. João Sá da Costa, 1996)


Arouca, Serra da Freita.
                                                Lola

Filmes e Leituras

Cena do filme A Menina que roubava livros  Crédito: Fox Filmes



Filmes e leituras 





Kate Winslet é o personagem central de O Leitor   Crédito: Imagem Filmes

O Leitor (Stephen Daldry, 123 min, Imagem Filmes)


Na Alemanha pós 2ª Guerra Mundial, o adolescente Michael Berg se apaixona por uma mulher com o dobro da sua idade, Hanna Schimitz. Eles vivem uma intensa história de amor e passam tardes em que ela deixa a imaginação voar pelas narrativas lidas pelo rapaz. Oito anos depois, Berg descobre que Hanna está sendo julgada por executar ordens nazistas e a antiga relação dos dois pode ser a prova da inocência da alemã. Um filme que trata o tema de forma delicada e crua ao mesmo tempo, com uma atuação maravilhosa de Kate Winslet.


Fernanda Montenegro em cena de Central do Brasil   Crédito: Divulgação

Central do Brasil (Walter Salles, 113 min, Europa Filmes)


Dora, interpretada pela diva Fernanda Montenegro, escreve cartas para analfabetos na estação Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro. Mas, isso não a faz uma pessoa sensível. Muito pelo contrário, ela acredita que as correspondências são inúteis e fantasiosas. Tudo muda quando se compadece de Josué, um garoto de 9 anos, cuja mãe enviava cartas ao pai por meio dela. Quando a mãe do menino morre, ela o ajuda a encontrar esse progenitor que nunca conheceu. O filme foi indicado a melhor filme em língua estrangeira no Oscar de 1999.


Cena do filme A Menina que roubava livros    Crédito: Divulgação

A Menina que Roubava Livros (Brian Percival, 131 min, Fox Filmes)


Liesel Meminger é uma garota que lida com o horror da 2ª Guerra Mundial pela leitura. Ela rouba livros que estão dando sopa ou que estão correndo risco em uma fogueira ou que ela simplesmente queira muito. Ela ama os livros e acredita que eles devem ser partilhados, inclusive com um judeu que foi escondido por seu padrasto na casa deles.


Cena do filme Mãos Talentosas - A História de Ben Carson   Crédito: Divulgação

Mãos Talentosas: A História de Ben Carson (Thomas Carter, 86 min, Netflix)


O filme conta a história real do diretor do departamento de Neurocirurgia Pediátrica do hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Ele era um menino pobre, negro de mãe separada e analfabeta. Não tinha um bom desempenho na escola, nem acreditava que fosse capaz de ter. Mas, quando sua mãe repara na biblioteca de seu patrão, ela tem a ideia de fazer com que ele leia 2 livros por semana. Essa rotina modifica completamente a postura de Ben diante da vida e se constitui nos primeiros degraus para sua chegada à neurocirurgia.


Crédito: Divulgação

Minhas Tardes com Margueritte (Jean Becker, 82 min, Netflix)


Nesse filme francês, o faz-tudo e simplório Germain constrói uma linda amizade com Margueritte, uma senhora de 95 anos apaixonada pela literatura. Ela divide com ele textos de Albert Camus e o faz ver beleza até na leitura de um dicionário. “Viajando com um dicionário, de palavra em palavra, a gente vai sonhando”, ela diz. A relação dos dois abre um novo modo de ver as coisas para Germain que passa a dividir os aprendizados das tardes com todos a sua volta.


Cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos   Crédito: Divulgação

Sociedade dos Poetas Mortos (Peter Weir, 128 min, Netflix)


John Keating é um ex aluno que se torna professor de literatura inglesa e norte-americana na tradicional escola Welton Academy. Só que ele não tem nada de tradicional no seu modo de pensar, muito menos no de lecionar. No primeiro dia de aula, já chega assobiando e levando a turma para uma reflexão sobre como fazer que a vida valha a pena. No decorrer da história, eles descobrem que o docente havia participado de uma Sociedade dos Poetas Mortos, um clube de leitura de poesia , e decidem reviver o grupo.

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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Avós






A arte de ser avó (avô) -

                  



Netos são como herança. Você ganha sem merecer.
Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu...
É como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem
as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as
dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto.
O neto é, realmente, o sangue do seu sangue, filho do filho,
mais filho que filho mesmo...




Cinquenta anos, cinquenta e cinco... Você sente, obscuramente,
nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que se esperava.
Não lhe incomoda envelhecer, é claro.
A velhice tem suas alegrias, as suas compensações:
todos dizem isso, embora você, pessoalmente, ainda não as tenha
descoberto, mas acredita. Todavia, também, obscuramente, também
sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade.
Não de amores com suas paixões:
a doçura da meia idade não lhe exige essa efervescência.
A saudade é de alguma coisa que você tinha e que lhe fugiu, sutilmente,
junto com a mocidade. Bracinhos de criança.
O tumulto da presença infantil ao seu redor.
Meu Deus, para onde foram as suas crianças?




Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos,
que tem sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações,
você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas.
São homens e mulheres - não são mais aqueles que você recorda.
E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias
da gestação ou do parto, o doutor lhe coloca nos braços um bebê.
Completamente grátis. Nisso é que está a maravilha.



Sem dores, sem choro, aquela criancinha da qual você morria de
saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha,
longe de ser um estranho, é um filho seu que lhe é devolvido.
E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com
extravagância. Ao contrário, lhe causaria espanto, decepção se você não
o acolhesse com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava
desdenhado no seu coração.



Sim, tenho a certeza de que a vida nos dos dá netos para nos compensar
de todas as perdas trazidas pela velhice. São amores novos, profundos
e felizes, que vem ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos
arroubos juvenis. E, quando você vai embalar o menino ao som de
"passarinho como vai" ele, tonto de sono abre os olhinhos e diz :



"Vovó", seu coração estala de felicidade, como pão no forno"


Rachel de Queiroz 
in " A arte de ser avó "

Tenho tanta SAUDADE dos meus...

Lola

domingo, 7 de julho de 2019

Lembra-te






Lembra-te


Lembra-te 
que todos os momentos 
que nos coroaram 
todas as estradas 
radiosas que abrimos 
irão achando sem fim 
seu ansioso lugar 
seu botão de florir 
o horizonte 
e que dessa procura 
extenuante e precisa 
não teremos sinal 
senão o de saber 
que irá por onde fomos 
um para o outro 
vividos 



Mário Cesariny, 
in "Pena Capital"




                                               Lola

Procuro-te



Procuro-te


Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 


Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido. 



Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 



Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 



Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 



Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 



Eugénio de Andrade, 
in "As Palavras Interditas" 

                                                Lola

Estórias de Mulheres...




Estórias de Mulheres...


"A Maria é professora. E também é estúpida.
Ela sabe que é estúpida porque o João, o seu marido, lho diz. Explica sempre tudo o que a Maria expressa. E o João sabe o que diz. O João não tem nenhuma formação específica e prefere o café ao trabalho. Mas o João não é estúpido porque é homem e homens não são estúpidos.

A Raquel tem 50 anos. A Raquel é velha.

Ela sabe que é velha porque o Pedro, o seu companheiro, a esclarece com frequência. Aponta-lhe os cabelos brancos, as rugas no rosto, a flacidez das mamas. O Pedro tem 55 anos. Tem cabelos grisalhos, duplo queixo e a barriga já lhe encobre a pouca masculinidade. Mas o Pedro não é velho porque é homem e homens não envelhecem.


A Filipa é estudante. E é puta.
Ela sabe que é puta porque o Miguel, o seu namorado, lho explica. Às vezes com manifestações físicas: já lhe rasgou o decote de um top, já lhe esfregou o batom pelo rosto, já a proibiu de usar certas saias.
O Miguel implora sexo a tudo o que mexe, oferece-se em praça pública, exibe-se em tronco nu. Mas o Miguel não é puta porque é homem e homens não são putas.

A Bárbara é uma mulher realizada. E é infeliz. Ela sabe que é infeliz porque a Joana, a sua mãe, a informa constantemente. Precisas de alguém que te faça feliz, repete. A Joana é casada com o Raul, pai da Bárbara. O Raul é um adúltero que se diverte a abusar psicologicamente da Joana. Continua casado por cobardia. Sente um desprezo natural pela inércia da companheira. Mas a Joana não é infeliz porque 'tem' um homem e quem 'tem' um homem não é infeliz."





A Isabel está casada há quase 25 anos. A Isabel tem um marido que nunca a traiu e que a respeita. Os dois construiram uma cumplicidade, uma empatia e um Amor que sobreviveu às provas mais duras porque se fortaleceu nelas e se alimentou nas fases mais apaixonadas. A Isabel tem quase 50, mas o Marido continua a amar cada centímetro do seu corpo, a elogiar o seu peito e a gostar de a ver vestida com roupas que realçam a sua feminilidade. A Isabel tem um marido responsável por metade das tarefas em casa, que ama incondicionalmente os seus filhos e que sempre respeitou a sua independência e carácter. A Isabel sabe que o seu marido arriscou tudo para ter uma vida melhor e que o fez com o intuito de a ter ao seu lado, sempre. A Isabel sabe que o seu marido faz amor com ela da mesma forma que sempre fez, com paixão, com entrega, com a preocupação de que o prazer dela é tão ou mais importante que o seu. A Isabel ama o seu marido. Ela sabe que há Homens e que há homenzinhos. O marido da Isabel acha o machismo tão absurdamente estúpido quanto o feminismo bacoco, e lamenta que se realce sempre os maus exemplos sem mostrar os bons. Acha que a verdadeira instrução deve ser dada com a contraposição do que está errado com o que é certo, porque falar apenas do errado não é educativo per se.



                                                Lola