quinta-feira, 28 de maio de 2015

Tu





Tu


Existes? 
Não sei...talvez là no fundo do caminho 
que se abre até ao Mar...
Existes nos meus sonhos que enchem noites de brilho...
Passeias no meu coração adormecido 
por não te ver o olhar moreno 
nem sentir a meiguice  das palavras 
nem tocar o equilibrio dos teus gestos...
Caminhas junto a mim nas recordações
 que jà vivemos e...
 num abraço de mar que te quero dar!

Existes...porque gosto de ti!








Que seria de mim sem a lembrança do teu rosto sereno?





                                           Lola







domingo, 26 de abril de 2015

Desejei-te em poesia...







Desejei-te em poesia...

Rute entrou na antecâmara do palco e viu-o logo que percorreu o espaço com os seus olhitos de amêndoa!

Mesmo, de forma inesperada, o seu olhar cruzava-se sempre com o dele em espaços povoados de meninos que estavam preenchendo o chão colorido numa animada cantoria de palavras!

Tomàs é ainda menino! Promessa enorme de homem de caràcter e de responsabilidade altruista!

Mas o seu olhar, por agora,  revela uma sedução de mar sereno que leva Rute a desejar esses momentos so para si, quando estes acontecem deliciosamente de tempos a tempos!

Rute e Tomàs gostam de palavras, do texto e da poesia! Ela não conhece o verdadeiro sentir daquele miudo que, elegantemente, dobra os punhos da camisa, numa postura de firmeza e convicção daquilo com que se compromete!

Por vezes dão um abraço pela amizade conquistada e... Rute gostaria de permanecer eternamente parada nesse abraço espontâneo e doce que suporta algumas inseguranças!

Naquela noite  Rute preparava-se para ouvi-lo em poema cada vez mais consciente de que as palavras soariam: Fortes, convictas, determinadas, sonantes...preenchendo espaços nunca antes amados pela palavra em poesia!

As palavras ganharam o brilho de uma voz que se gosta de ouvir e de sentir porque brota de um coração pequenino e ternurento!

No fim...abraçou-o! Pelo que hà de comum nos gostos que partilham: os livros, a poesia, o sonho de um olhar, um afecto delicioso...quase inexplicavel!

Rute continua a gostar muito de Tomàs! 

Gostar? Sim, porque não ...

Afinal, algures na noite de um azul prateado de mar...

ela vai desejando o seu olhar envolvido em poesia!





                                             Lola

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia do Pai



Dia do Pai





                                                Lola

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Acordo




Primeiramente


Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus. 
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo. 
Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca — e sempre a tua boca — comece de novo a nascer na minha boca. 
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.


Eugénio de Andrade, 
in 'Poesia e Prosa [1940-1980]'



Até quando a areia escorregando nas mãos de espera

 esperançada?



Lola

És linda




És linda


És linda. E nem sabes quantos pedaços de beleza tive de juntar para chegar a esta conclusão. Para te construir, tive de misturar a conspiração das searas com a tristeza do choupo, a inquietação da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos miosótis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas, a paciência das casas à beira da falésia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem à lua. Acrescentei-lhe a canção das margens e pequenos pedaços da angústia do olhar. Não esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o coração dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus músculos prometi a violência das cascatas, no teu sexo acordei a memória do universo. 
A tua beleza está no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar.
 És linda, repito. Mas tenta não encarar o que te digo como um elogio.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'



Através do mar em circulo vejo-te cada vez mais 
serenamente moreno

e sorridentemente dialogante!

Sabes?

Es lindo... de uma beleza filosófica que fez de mim 
metade de existência!

Encontrar-te-ei inteiro no mar de serenidade em

tempo que teima em não encontrar-te 

em cada onda que não desiste da 
 espera?





                                                Lola

Construção




Construção


Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado.

Chico Buarque






Também olhei para ti, naquele momento,

 como se fosse o ultimo...

E foi, até hoje...

Tenho tanta Saudade em construção!

Até quando ...

 vamos desconstruir a contramão?



(imagem: Lee Jeffries)

                                               Lola

Alegria e Felicidade





Alegria e Felicidade


Há quem confunda a alegria com a felicidade.
A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria - ou um cigarro de liamba, ou um novo amor - porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria pode, pois, ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo de artifício. Não faz estremecer estádios.
Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes.


José Eduardo Agualusa, 
in Barroco Tropical



Alegria momentânea e ou momentos felicitantes?

Felicidade como ideal da imaginação e não da razão!

Porque desejamos continua e continuadamente aquilo
 do qual desconhecemos a complexa definição?

A felicidade é inimiga da consciência presente?





Lola