domingo, 31 de dezembro de 2017

Mar



MAR
I
De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, 
in POESIA (Ed. de autora, 1944), 
in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010; Assírio & Alvim, 2015)


Aprendi, contigo, a ter saudade do mar, 
de andar, solitariamente, pela areia em fins de tarde que parecem infinitos de desejo!
Contigo, o mar outrora revolto buscou a serenidade 
que o cuidado merecia e o meu olhar desejava!
Por ti, passei horas a envolver o sabor do Mar 
que nos une num imenso e desmesurado ABRAÇO colorido 
de uma saudade que perdura no tempo que é nosso!

Sabes?
Adoro-te, my Dear!





                                           Lola

Vive





VIVE



Vive, dizes, no presente,

Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas 
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê. 
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


19-7-1920



ALBERTO CAEIRO, in POEMAS INCONJUNTOS,

 in POEMAS DE ALBERTO CAEIRO. 
FERNANDO PESSOA (Ática, 1946; 10ª ed., 1993)

Também eu vivo o presente, o presente que sou e não os presentes que tenho em mim! 
Passados de saudade guardo alguns...outros deitei, definitivamente fora! 
Não os quero, não me confortam, inúteis que foram!
Presente... 
um instante apenas, um sopro de vento, uma brisa que sabe a desejo de
querer  continuar a pensar-te...

Adoro-te, my dear!



                                           Lola

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Chove




Chove

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


JOSÉ GOMES FERREIRA, in POETA MILITANTE I -
 VIAGEM EM SÉCULO VINTE EM MIM (Moraes Ed., 
1977; 4ª ed. Pub. D. Quixote, 1990) 



                                           Lola

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Preciso





Preciso

Eu preciso

De apanhar um comboio

Embarcar num avião.
Viajar na noite
Esperar pelo amanhecer.
Ver o mar.



Eu preciso

De escrever um conto
Ler um romance
Apaziguar a imaginação
Colorir um sonho.



Ver-te a ti.



Paul Irondie



                                           Lola

Noite





NOITE


Noite. Noite em nossa roda. Noite aberta.

E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre,
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN,
 in OBRA POÉTICA (Caminho, 2010)






                                          Lola

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Dor de Mãe



Dor de Mãe


"Nada cala a dor da mãe que te perdeu, ninguém sabe do amor da mãe que te nasceu."



“A Música é lugar de aglutinação, fonte de esperança e, muitas vezes, de salvação. Como escritor de Canções move-me, também, a busca desta paz, do consolo tão necessário perante a dor ou a perda. Muitas vezes penso como, sem recurso ao privilégio que me é dado de poder escrever e tocar, serão penosos os dias para os tantos que encaram, e vencem, as tempestades da vida.

A Música é, assim, um caminho de redenção coletiva. De cima do palco sinto-me pertença de uma comunidade maior com a qual, em alguns momentos, celebro a surpreendente emocionalidade comum.

’Meu Querido Filho Tão Tarde Que É’ foi uma Canção escrita, como todas, na minha solitária viagem pessoal. É nesse espaço que me sei acompanhado pela presença silenciosa dos muitos que soçobram perante o infortúnio e o absurdo. A escrita de Canções é, por isso, também, o meu lugar.

Cada um lhe dará o fim que pretende ou a utilizará para o propósito que necessite.”

Pedro Abrunhosa 



https://www.youtube.com/watch?v=TMiPcoBHow8


Obrigado Pedro Abrunhosa por tão bem pintar em musicas a dor maior que eu, há dez anos, sei de cor!
Chamava-se Diana, tinha 22 anos e gostava muito de ouvir...
...Pedro Abrunhosa!



                                            Lola

domingo, 24 de dezembro de 2017

Natal



NATAL 


Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.
Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.
Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.


MIGUEL TORGA, 
in DIÁRIO XII (Coimbra, 1977)


                                            Lola