quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Fernando Pessoa



Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Fernando Pessoa





Lola

Fernando Pessoa



Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fernando Pessoa


Lola

Fernando Pessoa



Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa





terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Fernando Pessoa


Ode marítima
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É – sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
Fernando Pessoa

Lola

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Momento


MOMENTO

Aquele dia acordara soalheiro! 
Era, mais uma vez, de rotina matinal, porem a tarde revelava-se, para Rita e Pedro, uma sequência de momentos diferentes dado que iriam a uma conferência da empresa onde trabalhavam hà vàrios anos.
Eram amigos, demasiadamente amigos! De uma relação genuina, com respeito de olhares e interpretação de gestos desinteressados mas sem serem, de modo algum,  desinteressantes!
Rita tivera uma vida amarga de saudade em perdas irreparaveis, vivera momentos de violência em palavras rudes e gritos estridentes que de tão inesperadamente fortes tinham deixado marcas na alma de quem apenas gostava de paz e sorria a momentos de serenidade que cada vez mais iam rareando na sua vida desejavelmente pacata e sem sobressaltos.
De Pedro pouco sabia mas também era o que menos a perturbava. Bastava-lhe saber que em determinados momentos ele estava ali num apoio incondicional, por vezes, silencioso, mas que engrandecia a força que Rita nunca encontrara em ninguém!
Lembrava-se, perfeitamente, do primeiro dia que o vira entrar pela porta da empresa com ar de insegurança face a um mundo diferente, longinquo e desamparado! Notara-o porque teriam de partilhar a mesma secção da empresa que ela chefiava e isso obrigaria a contactos permanentes em termos profissionais!
Um dia coincidiram num momento de pausa para almoço e falaram de aspectos da vida pessoal sem limitações de linguagem ou de expressão de afectos, alguns jà dolorosamente passados e parcialmente apagados!
A partir dai não mais voltaram a esse quadro de vida passada e presente o que de certo modo elevava uma relação interessante mas totalmente impossivel de adjectivar com palavras fixas, seguras e limitadas!
O dia manteve-se soalheiro e...
... foi sorrindo ainda mais quando, no inicio da tarde, juntos, partiram para a reunião profissional que demoraria um percurso de conversa espontânea, variada, animada, cumplice e verdadeiramente envolta em improvisos e gargalhadas.
Rita sentia-se profunda e delicadamente liberta de uma pressão que tanto a sufocara  em amarras que ela propria, no seu intimo, nunca aceitara e que, por isso mesmo, se pintaram, muitas vezes,  em làgrimas de um amargo incolor. 
Naquele dia era diferente!
Sentia-se segura, apoiada, comoda e serenamente acompanhada num diàlogo que hà muito se notava ter mais de comum que de distancia  em relação ao mundo e à vida.
Quase sem dar por isso chegaram ao espaço reservado e ali mesmo, passadas as formalidades inevitaveis, pousaram demoradamente o olhar e estenderam o momento pela paisagem num cigarro que se tornou a unica testemunha de uma tarde agradavel e que deslizava delicadamente pelos recantos do espaço sumptuosamente decorado e magestosamente localizado na colina do casario que se deitava, mesmo ali à sua frente!
 E porque o momento convidava, antes mesmo do evento profissional, afinal o unico objectivo deste percurso alegremente partilhado numa cumplicidade invulgar, Rita e Pedro tomaram um "drink" não desistindo de continuar a conversa agradavel e do olhar comprometido com a envolvência que descia de modo geometricamente equilibrado até ao rio da parte velha da cidade!
Momento a momento o tempo foi deslizando num regresso agradavelmente partilhado em dialogo de palavras abertas e fluidas, saltitando de tema em tema como que se não houvera outro momento tão prazeroso!
Chegados, Rita deu um beijo a Pedro e agradeceu os momentos continuados de uma 
serenidade hà muito arredada da sua vida.
Para Pedro este teria sido, provavelmente, apenas mais um dia, mas isso, para ela, não  fazia diminuir a solenidade e elevação de estar com uma pessoa interessante, integra e serenamente maravilhosa! E isso, sim, era demasiadamente importante para que Rita procurasse  ler sentires e pensares que não o seu!
Por isso...
... quando a viagem parou devagarinho, Rita não olhou para tràs e caminhou apressadamente como que ainda perseguida pela temerosa intranquilidade  de tantos anos!
Pedro fez a viagem de regresso... 
... e a cidade, là longe, adormecia suave e delicadamente sem saber ter sido, nesse dia, a  anfitriã privilegiada de um dos momentos mais doces e suaves da vida de Rita!




Nessa noite, 
Rita adormeceu abraçada a esta balada... 
Ao fundo do quarto um guarda chuva amarelo teimava em desiquilibrar-se e na mesinha redonda, mesmo ao lado da sua cama, um sabonete cuidadosamente  embrulhado em papel colorido  olhava-a num cheirinho a PHILOSOPHIA!

Sorriu... 

Era mesmo  feliz!...







                                          Lola 







domingo, 1 de dezembro de 2013

Mar e Amor



Mar e Amor
Amor e Mar



Amor é Mar

O amor é tão grande como o mar
Tão forte e de um encanto infindável
Até é capaz de matar
O amor é tão belo como o mar
Onde adultos são crianças
Os olhos brilham, o coração acelera,
A existência tem outro sentido diante do amor
A perfeição tem outra visão diante do mar
A vida tem outros valores diante do amor.

Tal como o mar, o amor se renova em ciclos
no mar são as marés, que sobem e abaixam as águas
no amor, são os pequenos sinais, as delicadezas
o respeito, a afeição pelo outro, as lembranças
que vão edificando um sentimento maior que o mar
maior que o próprio amor, acelerando com a idade
sendo tão bondoso que abre mão de si mesmo
quando deixa de ser uma paixão
para se tornar cumplicidade.

Em frente ao mar, contemplo as ondas no vai e vem sem fim
e tenho esperanças, que assim como as ondas

o amor que se foi, pode dobrar, ou se renovar
e assim como estou diante do mar
poderei estar diante de um novo amor
para um reiniciar, num indo e vindo infindo
como o próprio mar, como o próprio amor.

Fernando de Sousa Pereira











Lola





Professor de Filosofia




PROFESSOR DE FILOSOFIA


Coimbra, 20 de Novembro de 1971 - Jà tremo , quando o vejo entrar. Fala, fala, fala, e, no fim do soliloquio, que nenhum enfado monossilàbico consegue esmorecer, fico sempre com a impressão de que perdi o meu rico tempo a ouvir pela milésima vez um disco arranhado. As pessoas,aqui, aprendem uma lição qualquer - a do catecismo, a do marxismo, a do fascismo,, a do existencialismo, e a mais recente do estruturalismo, e repentem-na incansavelmente enquanto o fôlego as não abandona.E os proprios juizos que formulam - religiosos, politicos, filosoficos, literàrios ou outros - , não passam de confrontos.
Tudo o que confirma a lição, està certo. tudo o que a contraria, errado. As vezes acontece soar na monotonia do cantochão, que, de tão familiar, sabemos de cor, uma voz que parece vestida de lavado. Olà! E arrebitamos a orelha. Mas foi rebate falso, mera alucinação auditiva. (...)



Miguel Torga - Diàrio XX.

E nos que professores de filosofia somos?

Que exigências pedagogicas deverà ter um professor de Filosofia?

O que esperam os alunos de um professor de Filosofia?

Como manter uma aula simultaneamente alegre e motivadora, reflexiva e interventiva?

Que coerência de valores lhes passamos nos?

Que toleräncia vivenciamos com os alunos?

Que perspectivas de futuro lhes transmitimos?

Com que convicção?






 Lola