terça-feira, 13 de junho de 2017

Como se sobrevive à morte de um filho?

Como se sobrevive à morte de um filho?


«É como se nos arrancassem um membro e andássemos todos os dias à procura dele», diz Manuel. «A pessoa que eu era, morreu», diz Isabel. «Tiraram-me a alegria, a vida, o coração», diz Fernando. Todos perderam filhos, a mais dura prova a que uma mãe ou um pai podem estar sujeitos. 

Como se continua depois de acontecer o que não pode acontecer?


«Hoje é dia 18, o David vai morrer daqui a um mês.» Na verdade, passam agora dez anos. Mas para a mãe as datas confundem-se. Ficou perdida, desorientada com elas, um comportamento comum em pais que perderam os filhos. «Às vezes, até penso no passado transposto para futuro. E acabo a dizer coisas como: “Ontem foi o dia em que o David vai entrar para o hospital”.»
O filho de Isabel Venâncio morreu em 2007, mas «é como se fosse ser daqui a um mês». Quando a data certa se aproxima, vai revivendo os dias que precederam a morte de David, incluindo aquele em que ele entrou no Hospital de Santo António, no Porto, e ela percebeu que entravam dois mas só sairia um. Era inevitável: por aquilo que a médica lhe ia dizendo, Isabel percebeu que David «estava irremediavelmente invadido pelo cancro». Cinco dias depois, confirmou-se: o filho morreu. 
Como é que uma mãe sobrevive a isto?
«A pessoa que eu era morreu. Sobreviveu no aspeto exterior. Quem cá está é uma mistura de muitos pedaços: fica-se completamente estilhaçada. Não há hipótese de ver um filho morrer e ficar igual. Não há hipótese de alguém sobreviver àquela dor porque é uma coisa que nos derrota completamente. Só se quer ir com ele e, quando se acorda daquele momento, é-se uma pessoa completamente diferente.»
Ninguém está preparado para perder um filho. 
Nem Isabel, a quem disseram que David tinha 2% de probabilidade de sobreviver, poderia preparar-se. «Eu estava avisada desde o início, mas ninguém se prepara para aquilo que vai acontecer porque há uma recusa natural. Diz-se que isto não pode acontecer. E mesmo agora, que aconteceu, eu continuo a achar que não pode acontecer. E vai acontecer daqui a um mês e acontece todos os dias.»
Fernando Claudino perdeu o filho a 3 de maio do ano passado, vítima de uma infeção hospitalar com uma bactéria multirresistente. Em março, Bruno foi ao Hospital Lusíadas, em Lisboa, fazer um exame à vesícula, conta o pai. Depois, foi transferido para o Hospital de Santa Maria, onde acabaria por morrer. Bruno era um homem saudável, 42 anos feitos no hospital, e corria todos os dias. Aliás, pai e filho corriam juntos e participavam em maratonas.
Isabel Venâncio não é crente. Depois da morte do filho David, há dez anos, juntou-se a um pequeno grupo de pais em luto, do qual fazia parte uma mãe muito católica, que lhe perguntou como é que ela aguentava sem ajuda divina. «Disse-me ainda que o David está bem, que é outra das frases feitas que eu não suporto. (…) Eu não acredito em Deus, não tenho fé de espécie alguma. No entanto, as pessoas que acreditam na vida eterna têm esse consolo.»
«Tiraram-me a alegria, a vida, o coração, tiraram-me tudo. Eu e a minha mulher vamos para casa à meia-noite, andamos por aí perdidos para não estarmos a olhar para as fotografias do Bruno. Quando estamos em casa, estamos sempre a chorar. Vamos para o centro comercial, armados em parolos.» Apesar da revolta que sente, tem fé e acredita que voltará a estar com o filho. «Por vontade da minha mulher íamos já ter com ele, porque ela diz que não anda cá a fazer nada. Nunca pensei que estivesse guardado para isto.»
Fernando continua a correr todos os dias, na Quinta das Conchas em Lisboa. «Começo a olhar para as árvores e parece que estou no paraíso. E parece que o meu filho me vai dar um sinal.» Ao contrário de Fernando, Isabel não é crente. Depois da morte de David, juntou-se a um pequeno grupo de pais em luto, do qual fazia parte uma mãe muito católica, que lhe perguntou como é que ela aguentava sem ajuda divina. «Disse-me ainda que o David está bem, que é outra das frases feitas que eu não suporto. Achava isso uma coisa bárbara de se dizer», recorda Isabel. «Sei que não há futuro. Não há David. Eu acho que incorporo um bocadinho do David, mas o David morreu. Nunca mais vou ver o David, nunca mais lhe vou sentir o cheiro, nunca mais lhe vou tocar na mão. O David perdeu-se. Eu não acredito em Deus, não tenho fé de espécie alguma.
No entanto, as pessoas que acreditam na vida eterna têm esse consolo.» 
Elizabeth Peralta e Carla Coelho são psicólogas com formação específica e prática clínica na área do luto. Mas esclarecem logo que «ninguém é especialista no luto de ninguém». A morte de um filho é sempre «uma dor muito intensa, um acontecimento devastador na vida de um pai», diz Carla. Sendo cada filho «único e insubstituível», este tipo de luto prolonga-se por mais tempo, é vivido com muito mais intensidade e «nunca se chega a um estado de aceitação», junta Elizabeth. As palavras são muito importantes quando se está a acompanhar um pai ou uma mãe em luto. As duas psicólogas tentam ajudar os pais a superar os momentos de maior angústia para que estes passem a ser mais de tristeza e menos de angústia. 
Mas não há exatamente conselhos a dar.
A 16 de outubro de 1999, Manuel Barata conduzia a mulher e as duas filhas a Figueiró dos Vinhos para um encontro familiar. De súbito, um camião atravessou-se à frente do carro em que seguiam. Para não bater nele, Manuel encostou-se à direita, roçou no lancil de uma área de serviço, o carro bateu num prédio e capotou. Quando olhou para trás não viu nenhuma das filhas dentro do carro. Vanessa, de 14 anos, estava no chão. O pai chamou por ela várias vezes mas ela não respondeu. A outra filha, de 15, estava caída numa valeta, mas consciente. Enquanto esteve internada, os pais nunca lhe disseram o que tinha acontecido à irmã.
Manuel culpa-se pelo acidente, culpam-no familiares e amigos. «Foste tu que a puseste debaixo do chão», chegaram a dizer-lhe. E ele foi-se afastando de muita gente, foi cortando laços com amigos e familiares. Dezoito anos depois, Manuel e a mulher andam sempre com a morte da filha na cabeça. «Isto é uma coisa que não se apaga, são muitas as noites em branco e é como se nos arrancassem um membro e andássemos todos os dias à procura dele. Praticamente não se vive, andamos à tona, à deriva.»
Manuel foi, entretanto, a uma das sessões psicoterapêuticas que Elizabeth Peralta promove. Nesses momentos, com outros pais em luto, «as pessoas são invadidas por um sentimento genuíno de compaixão pelo outro», diz a psicóloga. É também esse sentimento que Carlos Céu e Silva, presidente da associação Laços Eternos, em Lisboa, deteta nos grupos de entreajuda. Os encontros são moderados por um pai ou por uma mãe em luto que se sinta capaz de servir de modelo ou fonte de inspiração para os que chegam «destruídos e completamente revoltados com a vida».
O trabalho do técnico é estar em silêncio e só intervir quando há uma solicitação direta ou, no final, para focar um assunto que foi esquecido.«Os pais precisam de afeto, de colo, de alguém que seja empático com a sua dor. Podem estar anestesiados partes do dia, mas há ali momentos de uma infeliz lucidez em que percebem que a realidade é incontornável», explica Céu e Silva.
A Laços Eternos é um espaço de encontro de pais, mães, mas também de irmãos. «Os irmãos sofrem duplamente: assistem à dor e ao desespero dos pais, à mudança de vida. Muitos pais deixam de trabalhar, alteram os hábitos e os filhos que ficam têm de estar disponíveis para aguentar a depressão ou a angústia dos pais. Têm de estar do lado deles e abafar a própria dor», diz Carlos Céu e Silva.
A morte de um filho é sempre «uma dor muito intensa, um acontecimento devastador na vida de um pai», diz a psicóloga Carla coelho. «Sendo cada filho único e insubstituível», este tipo de luto é vivido com mais intensidade e «nunca se chega a um estado de aceitação», acrescenta a colega Elizabeth peralta. As duas psicólogas tentam ajudar os pais a superar momentos de maior angústia para que estes passem a ser mais de tristeza e menos de angústia.
Numa manhã de domingo, no final de abril de 2012, Carolina Sobrinho estava no Estoril Open a ver um jogo de ténis quando recebeu uma chamada telefónica. Então com 17 anos, ouviu do outro lado da linha o pai a dizer que a ia buscar, que tinha acontecido uma coisa com a irmã. Ana perdeu a vida aos 22 anos num acidente de viação perto de Málaga, em Espanha. Carolina, a irmã do meio, que nunca tinha ido a um funeral, assumiu instintivamente «as rédeas da família».
Os pais tiveram de ir para Espanha naquela manhã de domingo e ela ficou com Tininha, a irmã mais nova, 15 anos, na altura, e com a avó, «que estava inconsolável». «Havia muitas dúvidas no ar. Porque é que nos aconteceu isto? Porquê à minha irmã? Mas não podemos questionar, há coisas sobre as quais nunca vamos obter resposta.»
Agora, com a idade que a irmã tinha quando morreu, Carolina é uma pessoa diferente: «Não me iludo tanto. Tenho mais consciência do presente. Deixei de ter muitos sonhos.» Ainda lhe custa dizer que já só tem uma irmã. Ela e a Tininha fazem questão de manter a Ana presente: usam a roupa dela, falam sobre ela com os amigos. Carolina, recém-licenciada em Direito, sente-se próxima da Ana quando, por exemplo, ouve a música de Sade de que a irmã gostava muito. «E quero ir a sítios onde ela gostava de ir – não por ela, por mim. Mas com ela.»
Os últimos anos de Isabel Venâncio têm sido «conturbados e difíceis, feitos de choro, incompreensão, raiva e instintos destrutivos». Já não pode ouvir frases feitas como «É preciso é ser positivo, andar para a frente, é nossa obrigação viver.» «Eu não acho que uma pessoa tenha obrigação de viver seja o que for. Vive pura e simplesmente aquilo que tem de viver, não tem obrigações nenhumas», sintetiza. «Eu sou uma pessoa com muitos medos porque o medo entranhou-se de tal maneira que ficou. É um medo que paralisa. Começo logo com suores frios, fico enjoada. É como se me viesse o vómito à garganta.»
Isabel não aceita agora melhor a morte do filho. «Compreendo. É uma coisa que não pode acontecer, mas acontece. Mas aceitar, continuo a ter muita dificuldade em aceitar aquilo que nos aconteceu. Persiste o medo retroativo de que o David morra. Mas não se deve deixar de falar sobre um amor tão grande. Deixar de falar do David era matá-lo mesmo.»
Não é expectável que os pais em luto acabem por aceitar aquela que é a mais cretina das mortes. Não há um plano de tratamento nem há especialistas. Mas há a esperança de que a angústia vá dando lugar a outros sentimentos, como a tristeza. Para isso, os psicólogos estão munidos das únicas ferramentas disponíveis para tentar sossegar a dor dos pais: ouvidos atentos, palavras e compreensão.

Onde pedir ajuda


Há várias associações de apoio à pessoa em luto, uns mais informais do que outros, com apoio de forma presencial ou virtual (fóruns online e redes sociais). Os grupos de partilha e entreajuda são uma configuração comum nestas associações. É o caso da APELO – Associação de Apoio à Pessoa em Luto (www.apelo.pt), com sede em Aveiro e delegações em Braga, Lisboa e brevemente em Estremoz. A Laços Eternos – Associação de Apoio a Pais em Luto (www.lacoseternos.eu) presta auxílio nos lutos de filhos e irmãos. Com sede em Lisboa, tem protocolos com diferentes entidades em Évora, Parede, Porto e Setúbal. O Grupo de Pais em Luto do Oeste (www.choeste.min-saude.pt/gplo) formou-se também para responder às necessidades criadas com a extinção d’A Nossa Âncora, em 2013. Em 2015, investigadores das universidades do Minho e de Memphis, nos Estados Unidos, lançaram a plataforma Consulta de Luto Online (www.consultaluto.com), que disponibiliza consultas através de videochamada e e-mail.
In Noticias Magazine 
de 9 de Junho de 2017 
Texto Hélder Gomes



Eu também conheço esta dor 
amargamente cortante
 que perfura o coração 
e  destrói lentamente 
o nosso fragilizado corpo!
12 de Janeiro de 2007 
fiquei orfã da minha filha!

Diana, 22 anos, a metade de mim!

Porquê?

Lola

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Em ti







POEMA SEXAGÉSIMO SÉTIMO 

(excerto)
*
Em ti,
 posso mudar a esperança, 
a serenidade
e o imenso cansaço crescendo
dos meus braços para o mar,
entrando depois pelo teu corpo
para acender lentamente
o fogo
e pronunciar
a oração do fogo.


O que escrevo,
há muito retirei da tua voz,
esse rio que transborda em mim,
cujas margens sou eu, 
este eu abnegado e lutador,
capaz de florir uma alegria jovem
 enquanto
o fogo arde.

Não é uma coisa admirável
compartilhar o mesmo leito, como
duas gaivotas felizes
embasbacadas de azul?


*
Joaquim Pessoa


in GUARDAR O FOGO
Edições Esgotadas, 2013










                                               Lola

O amor é um poema.



POEMA SEXAGÉSIMO SEXTO 
(excerto)  



O amor é um poema. 
Dói e canta cá dentro.
 Tem a filosofia das árvores, 
a lição do mar, 
os ensinamentos que as aves recolhem 
quando migram para lá dos desertos, 
de onde hão-de
 regressar mais sábias e seguras. 

O amor é uma causa.
 Uma luta excessiva com a divindade
dos dias e a sua fogueira obscura.
 Mas também contra o mistério de si mesmo, 
uma paz que nos dá o cansaço e a loucura infeliz da felicidade,
 esse primitivo terror dos sinos que tocam 
como um aviso aos densos nevoeiros súbitos do mar
.
O amor é uma casa.
 Erguida com os beijos, com os versos
da noite e o gemido das estrelas.
 Casa cujas paredes vestem o nosso júbilo,
 a nossa intuição, a nossa vontade, 
sobretudo o nosso instinto e a nossa sabedoria. 
Onde se acende e brilha a luz suplicante da pele comprometida dos amantes.

O amor é um gigantesco pequeno mistério, 
uma estranha generosidade que faz com que,
 quanto mais damos, com mais
ficamos para dar.

Só o amor é o elixir da juventude. 
Não esse que sempre se procurou nas indecifráveis fórmulas 
dos antigos livros de magia e de alquimia, 
mas aquele que está tão perto de nós
 que,
por vezes
 o pisamos sem reparar.


JOAQUIM PESSOA
 in GUARDAR O FOGO 
(Edições Esgotadas, 2013)


O amor é, também, 
o cheirinho perfumado do teu rosto 
de menino ternurento,
da tua voz em melodia de 
um suave amanhecer, 
do teu sorriso oportunamente aveludado, 
do sabor dos teus abraços 
que deixam saudade cada vez que penso dolorosamente a distancia...
Não sentes 
o perfume inebriante do nos, my dear?



                                              Lola

Carta para Josefa, minha avó



Carta para Josefa, minha avó


Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. 

Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.


José Saramago



Que saudade de ti, avó!

Do teu carinho a correr comigo pelos campos, 
a provar as uvas nas videiras
a tirar o leite às vacas
a cozer o pão no velho forno a lenha
do penico de salsa plantada
no parapeito exterior da janela do corredor
da parte "nova" da casa 
onde se criou uma família muito,
mesmo muito numerosa!


Que saudade de ti, avó!
do teu sorriso, 
da tua disponibilidade em ajudar 
os mais necessitados, 
da garra que expressavas 
nos gestos mais simples do quotidiano!
Perdi tanto no dia que foste embora...
...que ainda hoje me ressinto 
da fragilidade dos pilares 
que temo falharem
 no suporte,
 sempre em desequilibro, 
da e na busca do meu ser!

Porquê, avó?



 Lola

domingo, 11 de junho de 2017

Mar Português



Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!


Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.


Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.



Fernando Pessoa

Este Mar de Pessoa, de Sophia e de Neruda...
Este Mar que nos encanta e aproxima
nos apaixona e nos convida
nos deixa saudosos e nos confirma
nos desafia e nos murmura 
em cada instante 
de uma ausência que se afirma
e nos leva esvoaçando ao infinito 
de saber o sabor da maresia!

Não é o que sentes, my Dear?


                                                Lola

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Coisa Amar



Coisa Amar



Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.



Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.



Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi



desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.




Manuel Alegre
Prémio Camões 2017


Para ti, Pedro my dear!



                                              Lola