domingo, 10 de junho de 2018

Portugal


Porto

 Portugal

Carta de amor a Portugal, Miguel Esteves Cardoso


Estou há que séculos para te escrever. A primeira vez que dei por ti foi quando dei pela tua falta.
Eu não queria ficar preso a ti, queria correr mundo. Passei a querer correr para ti – e foi para ti que corri, mal pude. 
Teria preferido chegar à conclusão que te amava por uma lenta acumulação de razões, emoções e vantagens. Mas foi ao contrário. Apaixonei-me de um dia para o outro, sem qualquer espécie de aviso, e, desde esse dia, que remédio, lá fui acumulando, lentamente, as razões por que te amo, retirando-as uma a uma dentre todas as outras razões para não te amar, ou não querer saber de ti.
Custou-me justificar o meu amor por ti. És difícil. És muito bonito e és doce, mas és pouco dado a retribuir o amor de quem te ama. 
Que remédio tinha eu senão começar a convencer-me que havia razões para te amar.
Encontram-se sempre. E, a partir de certa altura, quando já são seis ou sete razões que se foram arranjando ao longo dos anos, deixamos de amaldiçoar este amor que nos prende a ti e, inevitavelmente, começamos a sentir-nos, muito estúpida e secretamente, vaidosos por te amarmos, Como se fôssemos nós que tivéssemos sido escolhidos.
Não sou só eu, somos muitos. Possivelmente todos. Tragicamente todos, um bocadinho. Se calhar estamos todos, de vez em quando, um bocadinho apaixonados por ti.
Pois hoje vou-te dizer porque é que te amo. 
Amo-te, primeiro, por não seres outro país. Amo-te por seres Portugal e estares cheio de portugueses a falar português. Não há nenhum outro país, por muito bom ou bonito, onde isso aconteça. 
Mesmo que não achasse em ti senão defeitos e razões para deixar de te amar, preferiria isso mesmo, deixando de te amar, a que não existisses.
Se deixasses de existir, o meu olhar ficava de luto e nunca mais podia olhar para o resto do mundo com os olhos inteiramente abertos ou secos ou interessados. 
Esta é a única verdadeira prova de amor: fazer tudo para que sobreviva quem se ama. 
Mesmo que não houvesse em ti um único pormenor que não houvesse nos restantes países do mundo, mesmo assim eu amar-te-ia como se fosses o único país do muno, diferente em tudo. 

Coimbra

Amo-te tanto que, quando perguntas porque é que te amo, não fico nervoso, nem irritado. Não preciso tentar dar uma razão convincente. Amo-te à mesma, fiques ou não convencido.
Como vês, não preciso de razões para te amar. Mas tenho muitas. E boas. A primeira delas é secreta e embaraça-me confessá-la: amo-te, Portugal, porque, não sei contra todas as provas e possibilidades, acho que és o melhor país do mundo.
Como vês, não sou o romântico que estava a fingir ser, que te ama sem precisar de razões para isso. Tenho uma razão muito interesseira para te amar: acho que és o melhor país do mundo. Por muito relativista que seja noutras coisas, acho mesmo que tive sorte de nascer aqui. Em ti. Aqui, entre nós. 
Mesmo assim, insistes em perguntar: que tens tu de tão especial, que os outros países não têm? 
Essa íntima vaidade, por exemplo. Tu não és orgulhoso. Mas, muito bem disfarçada, tens uma vaidade sem fim. Dizes-te feio e vestes-te mal mas, quando passas por um espelho, espreitas e achas-te giro. E se alguám te diz que és feio e estás mal vestido, não ficas ofendido – achas que aquela pessoa é obviamente estúpida e não tem olhos na cara. 
Sabes que a tinta fresca salta muito à vista e que é cansativa. Esperas, despreocupado, pela beleza que há-de vir com a passagem dos tempos.
É a tua maneira, Portugal amado, de garantir que continuaremos a tentar retratar-te. Tanto te faz que o retrato seja feio ou bonito, desde que seja de ti. 
Eu amo-te porque mereces. Eu amo-te pelas tuas qualidades. Preferias não tê-las. Para que o amor fosse mais puro, mais contraditório, mais injustificável. Mas tens qualidades. 
Desculpa lá dizer-te isto, Portugal, mas amar-te é uma coisa simples.
Amo-te, aconteça o que acontecer. Amo-te por causa de ti. Não é apesar de ti. É por causa de ti. Não há outra razão. Nem podia haver uma razão mais simples. 
Por muito que te custa ouvir (apesar de eu saber que não só não te custa nada como gostas de ouvir…), digo-te: é tão grande o meu amor por ti que até consigo amar-te sem dar por isso.


Gosto de ti de Madrugada, saboreando a Saudade de um dia te poder dizer muito, muito baixinho:
Como foi dificil ver-te partir, my dear!

Lisboa
                                            Lola

Deixa-te Ficar Na Minha Casa




Deixa-te Ficar Na Minha Casa

  
Tenho livros e papeis espalhados pelo chão.
A poeira duma vida deve ter algum sentido:
Uma pista, um sinal de qualquer recordação,
Uma frase onde te encontre e me deixe comovido.

Guardo na palma da mão o calor dos objectos
Com as datas e locais, por que brincas, por que ris
E depois o arrepio, a memória dos afectos
Mmmmmm Que me deixa mais feliz.

Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.
O luar espera por ti
Quando for a maré vasa.
E ainda tens que me dizer
Porque é que nunca partiste...

Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente,
Qualquer coisa que ficou que é da nossa eternidade.
Huuum Afinal, eternamente.

Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.
Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.
O luar espera por ti
Quando for a maré vasa.
E ainda tens que me dizer
Porque é que nunca partiste...


Nuno Norte
Filarmónica Gil





Em dia de chuva, sabe tão bem ouvir boa música deliciosamente sussurrada em Português!

                                            Lola

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Ó Gente da Minha Terra

Cabaça & Arte

Ó Gente da Minha Terra



É meu e vosso este fado

Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve um gemido
Numa guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi



Que bonita a Saudade em poesia delicada!

Que bom este sentir (em) Português!

Cabaça & Arte
                                            Lola

Fui tão feliz no sonho...




Fui tão feliz no sonho...


Ora muito bem, como se eu não fosse um homem que costuma dormir de noite e consentir em sonhos (…) [muitas coisas irreais]. Com efeito, quantas vezes me acontece que, durante o repouso nocturno, me deixo persuadir de coisas tão habituais como que estou aqui, com o roupão vestido, sentado à lareira, quando todavia estou estendido na cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente com os olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária e conscientemente estendo esta mão e sinto-a: o que acontece quando se dorme não parece tão distinto. Como se não me recordasse de já ter sido enganado em sonhos por pensamentos semelhantes! Por isso, se reflicto mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sonho nunca se podem distinguir por sinais seguros, o que me espanta (…).

René Descartes
Meditações da Filosofia Primeira


Era já noite ida...de chuva muito pouco consentida mas que teimava em não abrandar um minuto que fosse!
Como em dias que terminam chorando, Rita adormeceu sem programa previamente traçado, pois como se sabe, os sonhos entram sem avisar, muitas vezes com uma candura que a ela muito surpreendiam.
E nessa noite, ningúem mais viveu um sonho bonito como o dela. 
Porquê?
Tudo, porque encontrara Pedro com o seu olhar esmeradamente meigo e a sua incontornável ternura algures num momento sem espaço nem tempo definido!
Pedro aportara à sua vida, na última década, uma esperança docemente perfumada sem, no entanto, nunca terem falado abertamente disso.
Pedro, pensava Rita, deveria adivinhar como era importante na sua vida...mas bastava-lhes uma boa conversa a dois, umas risadas cúmplices, um olhar desinteressadamente feliz, um abraço de corpo inteiro como só Pedro sabia oferecer! E fora tão bom o tempo que, por via de profissões e opções comuns, Rita e Pedro partilharam o mesmo espaço...
Rita já não via Pedro há três anos mas esse facto não encurtara, de modo algum, a sua estreita relação afectivamente próxima com aquele ser de excelência que, um dia sem saber bem porquê, cruzou com ela preenchendo o seu EU de uma tranquilidade que nem sempre a deixaram envolver o seu percurso de vida.
Pedro não era, nunca fora seu! 
Mas será que, algum dia, Pedro fora de alguém?
Não o sabia mas tinha uma convicção inabalável...nunca ninguém gostara tanto de Pedro como ela!
Imaginava-lhe o rosto mais, naturalmente, envelhecido! Eram quase da mesma idade e por isso, de vez em quando, perdiam-se em referências musicais e outras que eram. irremediavelmente, comuns às suas adolescências...e sorriam, atrevidamente, juntos.
Nessa noite...
...o sonho não foi diferente! 
Dialogaram, esqueceram-se num infinito olhar, sentiram-se num profundo e incomensurável abraço que ninguém  mais saberia imitar tão indizivel era a sua ligação encantadoramente fusional!
Pedro era e continuaria a ser a sua grande serenidade existencial mesmo que, de vez em quando, chegasse,  apenas, abraçadinho ao sonho...
... numa noite em que as lágrimas de saudade deslizam pela vidraça de um quarto de uma cidade que é (somente) sua!


Até quando, my dear?



Se, na Filosofia cartesiana, o sonho é um sustentador da dúvida e um factor impeditivo de chegar à verdade, na minha existência afortunada e profundamente revestida e revisitada, o sonho é um enorme possibilitador de encontros com o outro eu...

Quem ?


Tu, my dear!



                                            Lola

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A tristeza lusitana



Cabaça & Arte


A TRISTEZA LUSITANA


A tristeza lusitana
Embala-a o choro do mar

E às vezes tem um sorriso

Irmão-gémeo de chorar.



Tristeza antiga

Tristeza amiga

Do nosso luar.

Tristeza de Portugal
Baixo e terno soluçar
A tristeza que é só nossa

Tristeza nossa
Nem por flores, nem riquezas,
Nem por prendas sem igual
Ninguém trocar-te quisera
Tristeza de Portugal

Nossa somente
Doce mal
Só de quem sente
Mais suavemente
Que outro qualquer.

Tristeza como a tristeza
D’algum leve passarinho
Que chora co’o coração
E aos pobres diz «coitadinho»

Tristeza imensa
Terna e intensa
Do Algarve ao Minho.

Tem saudade, e saudades
Só as sente e mais ninguém
Quem tem aquela palavra
Para dizer que as tem

O povo de Portugal
Doa ou não ao seu mal
Só ele o conhece bem.

Ó mar que morres na praia
Acasos mortos no mar
Talvez que cantar cuideis
A alma do nosso penar.

Não sabeis, não o sentistes
Lágrimas, dores e tristezas
Só nós sabemos chorar,

A tristeza lusitana
Ninguém fala nela, não
Senão nós que a sentimos
Em lugar do coração.

O nosso amor
O nosso ardor
Tristeza são.


Fernando Pessoa
In Poesia 1931-1935


Cabaça & Arte
                                            Lola

Solidão




Solidão



Aproximo-me da noite 
o silêncio abre os seus panos escuros 
e as coisas escorrem 
por óleo frio e espesso 

Esta deveria ser a hora 
em que me recolheria 
como um poente 
no bater do teu peito 
mas a solidão 
entra pelos meus vidros 
e nas suas enlutadas mãos 
solto o meu delírio 

É então que surges 
com teus passos de menina 
os teus sonhos arrumados 
como duas tranças nas tuas costas 
guiando-me por corredores infinitos 
e regressando aos espelhos 
onde a vida te encarou 

Mas os ruídos da noite 
trazem a sua esponja silenciosa 
e sem luz e sem tinta 
o meu sonho resigna 

Longe 
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta 
e a onda da madrugada 
demora-se de encontro 
às rochas do tempo 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


                                            Lola

Escuto



Escuto

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Sophia de Mello Breyner


                                            Lola