sexta-feira, 20 de julho de 2018

Um poema




UM POEMA


Não tenhas medo, ouve:

É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...


MIGUEL TORGA, in DIÁRIO XIII [(8-7-1977/ 20-5-1982)
 Pub. Dom Quixote e Herdeiros de Miguel Torga, 
2.ª edição integral], 1999)]


                                            Lola

Carta a Ofélia





Fernando Pessoa, in 'Carta a Ofélia Queiroz (1920)'

Desculpa o papel impróprio em que te escrevo; é o único que encontrei na pasta, e aqui no Café Arcada não têm papel. Mas não te importas, não? Acabo de receber a tua carta com o postal, que acho muito engraçado.
Ontem foi — não é verdade? — uma coincidência engraçadíssima o facto de eu e minha irmã virmos para a Baixa exactamente ao mesmo tempo que tu. O que não teve graça foi tu desapareceres, apesar dos sinais que eu te fiz. Eu fui apenas deixar minha irmã ao Avda. Palace, para ela ir fazer umas compras e dar um passeio com a mãe e a irmã do rapaz belga que aí está. Eu saí quasi imediatamente, e esperava encontrar-te ali próximo para falarmos. Não quiseste. Tanta pressa tiveste de ir para casa de tua irmã!
E, ainda por cima, quando saí do hotel, vejo a janela de casa de tua irmã armada em camarote (com cadeiras suplementares) para o espectáculo de me ver passar! Claro está que, tendo visto isto, segui o meu caminho como se ali não estivesse ninguém. Quando eu pretendesse ser palhaço (para o que, aliás, o meu feitio natural pouco serve) oferecia-me directamente ao Coliseu. Era o que faltava agora! Que eu tolerasse a brincadeira de ser dado en spectacle para a família!
Se não havia maneira de evitares estares à janela com 148 pessoas, não estivesses. Já que não quiseste esperar-me ou falar-me, ao menos tivesses a cortesia — já que não podias aparecer só à janela — de não aparecer. Ora eu não posso estar a explicar-te estas coisas. Se o teu coração (supondo a existência desse senhor) ou a tua intuição te não ensinam instintivamente estas cousas, eu, por mim, não posso constituir-me em teu professor delas.
Quando me dizes que o que mais desejas é que eu case contigo, é pena que me não expliques que tenho ao mesmo tempo que casar com tua irmã, teu cunhado, teu sobrinho e não sei quantas freguesas da tua irmã.
Sempre e muito teu
Fernando

Esta carta foi escrita no esquecimento de que costumas mostrar as minhas cartas a toda a gente. Se me tivesse lembrado disso — acredita — eu tê-la-ia suavizado um pouco. Mas agora já é tarde; não importa. De resto, nada importa. F.

Fernando Pessoa


                                            Lola

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A fazer hoje



A fazer hoje:
(Variação sobre Eluard)


Escrever um poema sobre a liberdade e vê-lo arder.

Vivo.
Como uma mãe.
Escrever no centro do coração que o amor é o homem inacabado.


Respirar.
Respirar.
Respirar.

Pedir pouco. 
tão pouco...
quase nada.

Olhar de frente o sol.
Agradecer.

Olhar de frente a estrela mais pequena.
Agradecer.

Ver um caracol subir um vaso, uma planta, comer uma folha, abandonar a sua casa.
Agradecer que se tem família, agradecer que se tem amigos,
Olhar uma flor roxa fechar-se na noite.
Empurrar a minha filha no baloiço.
Dizer-lhe que nunca tenha medo.
Abraçar a Ale.
Tomar um café quente.

Pedir pouco.
Tão pouco.
Quase nada...

Nuno Brito

18 de Julho de 2018.

                                            Lola

domingo, 8 de julho de 2018

Nome de menina




Nome de menina

Dia de aulas!
Manhã de um dia de sol!
Pelo passeio dirijo-me apressadamente para entrar na escola secundária pelo portão quase em frente à escola preparatória!
De repente e quase a chegar  noto a presença de uma menina de olhar doce e moreno que, muito educadamente, se me dirige  dizendo:
- Senhora Professora, podia deixar-me entrar por aqui!
Olhei-a e respondo com a mesma candura:
- Eu não posso deixa-la entrar…
Dias antes todos os professores e demais trabalhadores da Escola Secundária tinham sido avisados da proibição de entrada e saída de qualquer aluno por esse portão na medida em que só o portão principal pode controlar através do cartão a entrada e saida dos alunos da escola.
A menina, ainda sem nome, olhou-me e disse:
- Eu vou telefonar…a minha mãe trabalha naquela escola…
E eu continuei a explicar, tratando-a como você, como me dirijo a todos alunos há cerca   de quatro décadas.
- Sabe…a direção não permite a entrada de alunos porque há meninos que procuram fugir por aqui…
Ela olhou-me…e eu continuei…
- Tem de ir por fora e dar a volta para entrar pelo portão principal…
- Está bem…obrigado!
Respondeu ela com a mesma meiguice com que me abordou e começou a dirigir-se, passeio abaixo, com a mochila às costas e a segurança de menina que sabe trilhar um caminho alternativo! Sem contestar, vi-a afastar-se cerca de dez metros, se tanto…
Neste entretanto…
…pensei…
- E se acontece algo a esta menina?E se aparece um carro com alguém estranho?
Pensamentos de mãe que adora, ampara e cuida…
Não hesitei…e disse prontamente…
- Venha comigo…eu assumo!
A menina entrou comigo e quando chegamos à recepção disse ao funcionário:
- Entrei com esta menina que me pediu…
- Não é nada comigo…tem de falar com a direção!
Fui à direção e repeti que tinha desrespeitado a regra…e responderam-me:
- Não o podes nem deves fazer…mas agora está feito…
A menina dirigiu-se para o interior da Escola Secundária e nunca mais a vi…nem sabia o seu nome…
Até àquele dia triste de há três meses!
A vila voltou a cobrir-se de um profundo cinza de perplexidade e saudade!
A mamã “que trabalhava naquela escola” era a Cristinita Matos, aquele sorriso que nos habituara há muitos anos…numa verdadeira resistência de quem não se deixa vencer fácil e passivamente pela dureza amarga do indesejado!
Carolina era a menina até então sem nome, para mim…
(Re)conheci o seu nome no dia... da partida da mamã!
Olhei-a uns dias depois na missa…ela iniciava um percurso de dor inverso ao meu…
Ela olhou-me e não sei se me reconheceu!
Querida Carolina, a nossa Cristinita (que foi minha aluna) deixou-nos o melhor de si…uma menina moreninha de olhar perfumadamente doce que todos vamos agradecendo o enorme prazer de conhecer!
Sabe, Carolina?
Sempre defendi que o domínio da moralidade está muito acima da legalidade e tendo, voluntária e conscientemente, quebrado a proibição…fá-lo-ia mil vezes em nome da segurança e tranquilidade de todos os meninos…
…como a Carolina…a menina de nome ternurento que um dia conheci e  para quem hoje escrevo com muito carinho!
Carolina, quer ser minha aluna de Filosofia como a mamã?



                                            Lola

sábado, 7 de julho de 2018

Lisboa que Amanhece





Lisboa que Amanhece

Cansados vão os corpos para casa
Dos ritmos imitados doutra dança
A noite finge ser
Ainda uma criança de olhos na lua
Com a sua
Cegueira da razão e do desejo
A noite é cega, as sombras de Lisboa
São da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa
Princesa
Que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou
Já mal o vejo
Por sobre o Tejo
E já tudo pode ser
Tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
æ noite é prisioneiro dos olhares
Ao Cais dos Miradoiros
Vão chegando dos bares os navegantes
Amantes
Das teias que o amor e o fumo tecem
E o Necas que julgou que era cantora
Que as dádivas da noite são eternas
Mal chega a madrugada
Tem que rapar as pernas para que o dia
Não traia
Dietriches que não foram nem Marlénes

Em sonhos, é sabido, não se morre
Aliás essa é a Única vantagem
De após o vão trabalho
O povo ir de viagem ao sono fundo
Fecundo
Em glórias e terrores e aventuras
E ai de quem acorda estremunhado
Espreitando pela fresta a ver se é dia
E as simples ansiedades

Ditam sentenças friamente ao ouvido

Ruído
Que a noite se acostuma e transfigura
Na Lisboa que amanhece

Sérgio Godinho

Ouvindo...



Já amanheci serena e perdidamente nos teus braços de imensidão 
profunda que me rodearam a alma sedenta do colorido do teu sorriso
 que, cada vez mais, me  admira e me seduz...


                                           Lola

quinta-feira, 5 de julho de 2018

No comboio descendente





NO COMBOIO DESCENDENTE


No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada —
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela —
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não —
No comboio descendente
De Palmela a Portimão…

FERNANDO PESSOA, in QUADRAS AO GOSTO POPULAR 
(Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
 Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 117.
“Poemas para Lili”


                                            Lola

terça-feira, 3 de julho de 2018

Segue o teu destino





SEGUE O TEU DESTINO

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


FERNANDO PESSOA, in Odes de Ricardo Reis
 (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
 [Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994)].



                                            Lola