sábado, 11 de novembro de 2017

Conto de Natal


Natal a tinta permanente
2015


Faz-se manhã de um frio suave que, por agora, não me vai  permitindo esfriar as emoções do Outono! Como habitualmente, corro em direcção à escola pelo caminho de pedritas geometricamente desalinhadas que conheço e saboreio desde a infância! Pelo carreirinho vou envolvendo, na minha já adultez, a criança de bibe e sandálias de pele amarelecida pelo uso, que tantas vezes se foi perdendo em brincadeiras no campo do avó Manel!

Que saudade desse tempo de ingenuidade permanente, de sorriso constante, de vivências verdejantes anoitecidas pelo crepitar da lenha na lareira escura ladeada pelo forno em que a avó Maria fazia o pão para o sustento da casa.

Os meus avós maternos sempre foram uma referência afectiva para mim, por isso nas férias vinha sempre para a aldeia respirar um pouco do ar do campo e ver os animais de que eu tanto gosto! O meu avô Manel aproveitava, sorrateiramente, o momento de um beijo ou abraço para esfregar a sua barba branca na minha carita aveludadamente morena; a minha avó Maria guardava para mim, sempre no bolso do seu avental de chita, uma mão cheia de nozes que me dava para eu ir comendo “sem ninguém ver”.

O que eu mais gostava eram as férias grandes e os meses que passava comendo fruta e brincando com os gatos lá de casa que, imprevisíveis e matreiros não perdiam a oportunidade me arranhar em momentos de desentendimento infantil! Lembro-me de um gato cinzento e outro preto que vagueavam pela casa nunca ultrapassando a porta de acesso aos quartos que quase só se abria à noite para todos se recolherem, logo que o dia beijava a noite, porque a vida do campo, não tendo horários inicia-se muito cedo, na tal madrugada de que só os portugueses sabem o significado!

Não sei porquê...ou talvez até nem seja difícil descobrir motivos, mas os meus pais nunca me deixaram passar o Natal na aldeia, "porque era a festa da família" e, deste modo, a minha presença na ceia de Natal era necessária até porque ...éramos quatro à mesa!

O meu pai tornava essa noite um pouco diferente! O velhinho, mas muito bem conservado, rádio Schaub Lorenz fazia entoar, solenemente pela casa, musica clássica e os quatro lá iniciávamos a ceia composta sempre do tradicional bacalhau e dos doces simples que a minha mãe começava a confeccionar pela manhã e desde esse momento, para mim era a alegria de "rapar" as sobras das massas dos bolos que a gulodice de menina não deixava escapar!

Noite de Natal, era hora de ocupar o lugar na mesa! Os mesmos lugares de sempre pois a minha mãe, verdadeira mulher de garra era, no entanto, intransigente na cedência a muitas mudanças ao sabor dos apetites dos filhos e começava-se "a comer" todos ao mesmo tempo que ali em casa não  era "uma pensão" e muito menos nessa noite!

Se para os meus pais essa era a noite de família pois até comíamos na sala o que por norma não acontecia, pois era a cozinha o espaço habitual das refeições para que a sala estivesse sempre limpa...no caso de vir alguém.... para mim e para o meu irmão era a noite das surpresas do Pai Natal!

Sozinhos e em segredo começávamos uns dias antes a tentar adivinhar a prendinha que era colocada no sapatito de cada um de nos posto em cima do fogão e bem na direcção da chaminé! Não conhecíamos prendas grandes e caras e, por isso mesmo, uma lembrança útil seria o suficiente para mim e para o meu irmão um carrinho colorido que fazia as delicias do soalho envernizado pela minha mãe de tempos a tempos! Sim, que a minha mãe era uma mulher esmerada nas lides da casa e nunca gostou que a desarrumação da casa fosse uma constante por mais que uma hora, se tanto...

Foi precisamente num destes natais da minha infância que eu desejei muito ter uma caneta de tinta permanente que alguns dos meus colegas de sala de aula já tinham e que eu esperava ansiosamente o Natal para pedir ao Pai Natal! Dificilmente eu pedia abertamente à minha mãe fosse o que fosse, mas ela adivinhava pelas referências que eu ia fazendo às meninas da sala de aula que já tinham este ou outro material escolar!

Aquele Natal foi deliciosamente diferente! Permaneceu doce na minha memoria até aos dias de hoje! Como sempre fazíamos, ainda a noite ia a meio e, devagarinho, levantávamo-nos e graciosamente encaminhávamo-nos até à cozinha onde sobre cada um dos nossos sapatitos estava a prenda do Pai Natal que nunca conhecêramos mas que, com toda a certeza, existia porque só ele era dotado de tanta generosidade numa casa que não sendo pobre, também não podia esbanjar o magro ordenado de um funcionário publico em "coisas sem utilidade"!

Vivi esse Natal de menina de forma tão alegre que ainda hoje o transporto nas memorias coloridas da minha infância!

E que me trouxe o Pai Natal? Que resposta me deu ele ao pedido que lhe fiz em silêncio, na intimidade da minha cama e na solidão do meu quarto?

Uma caneta de tinta permanente! Fiquei tão feliz, tão agradavelmente preenchida que passei, sem fazer muito barulho, pelo quarto dos meus pais e disse para a minha mãe que acordara com os nossos passos: "Vê, mãe não me deu a caneta e o Pai Natal trouxe-ma no sapatinho!" a minha mãe respondeu-me: "Que bom...agora vai dormir! Até amanhã!"

E fui dormir... sempre com a caneta de tinta permanente agarrada nas minhas mãos que mais tarde iriam desenhar com letra redondinha a copia ou a composição, pois afinal as carteiras da escolas já tinham o tinteiro para eu encher de tinta a prenda que o Pai Natal tinha, generosamente, escolhido para mim!
Volvidos muitos anos relembro com redobrada saudade aqueles tempos em que o cinzento de uma caneta de tinta permanente preencheu desejos cumpridos pelo Pai Natal em que eu, maravilhosamente, fui acreditando até muitos anos mais tarde!

Amanhece em frias manhas de Outono! Percorro o caminho da minha infância e das vivências com o avô Manel e a avo Maria! Dirijo-me para a escola pelo verde dos campos onde outrora brincara e fora animadamente uma miúda feliz! Os avos há muito partiram...os pais, esses partiram recentemente! A caneta de tinta permanente deverá estar lá para casa dos meus pais...que eu não ainda não sei revisitar!

Corro para a escola onde me esperam meninos dos nossos tempos! Pelo caminho o cheiro das uvas americanas que a infância fez permanecer em mim...até aos dias de hoje!

Que bom estes brilhos de memoria...este encanto do Pai Natal...este Outono que mesmo frio não regela emoções!


Que bom...




                                            Lola

O que é a Liberdade?




O que é a Liberdade?


Meu Pai, o que é a Liberdade?

- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho, 
o seu jeito de indagar 

o mundo a pedir guarida 
no brilho do seu olhar. 
A liberdade, meu filho, 
é o próprio rosto da vida 
que a vida quis desvendar. 
É sua irmã numa escada 
iniciada há milênios 
em direção ao amor, 
seu corpo feito de nuvens 
carne, sal, desejo, cálcio 
e fundamentos de dor. 
A liberdade, meu filho, 
é o próprio rosto do amor.



- Meu pai, o que é a liberdade?
A mão limpa, o copo d’água 
na mesa qual num altar 
aberto ao homem que passa 
com o vento verde do mar. 
É o ato simples de amar 
o amigo, o vinho, o silêncio 
da mulher olhando a tarde 
- laranja cortada ao meio, 
tremor de barco que parte, 
esto de crina sem freio.


- Meu pai, o que é a liberdade?
É um homem morto na cruz 
por ele próprio plantada, 
é a luz que sua morte expande 
pontuda como uma espada. 
É Cuauhtemoc a criar 
sobre o brasileiro que o mata 
uma rosa de ouro e prata 
para altivez mexicana. 
São quatro cavalos brancos 
quatro bússolas de sangue 
na praça de Vila Rica 
e mais Felipe dos Santos 
de pé a cuspir nos mantos 
do medo que a morte indica. 
É a blusa aberta do povo 
bandeira branca atirada 
jardim de estrelas de sangue 
do céu de maio tombadas 
dentro da noite goyesca. 
É a guilhotina madura 
cortando o espanto e o terror 
sem cortar a luz e o canto 
de uma lágrima de amor. 
É a branca barba de Karl 
a se misturar com a neve 
de Londres fria e sem lã, 
seu coração sobre as fábricas 
qual gigantesca maçã. 
É Van Gogh e sua tortura 
de viver num quarto em Arles 
com o sol preso em sua pintura. 
É o longo verso de Whitman 
fornalha descomunal 
cozendo o barro da Terra 
para o tempo industrial. 
É Federico em Granada. 
É o homem morto na cruz 
por ele próprio plantada 
e a luz que sua morte expande 
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?
A liberdade, meu filho, 
é coisa que assusta: 
visão terrível (que luta!) 
da vida contra o destino 
traçado de ponta a ponta 
como já contada conta 
pelo som dos altos sinos. 
É o homem amigo da morte 
Por querer demais a vida 
- a vida nunca podrida. 
É sonho findo em desgraça 
desta alma que, combalida, 
deixou suas penas de graça 
na grade em que foi ferida... 
a liberdade, meu filho, 
é a realidade do fogo 
do meu rosto quando eu ardo 
na imensa noite a buscar 
a luz que pede guarida 
nas trevas do meu olhar.


Moacyr Félix, in 'Canto para As Transformações do Homem'


                                          Lola

sábado, 4 de novembro de 2017

O Poeta



O POETA


O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

MIA COUTO


                                          Lola

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Lábios de Silêncio




Lábios de Silêncio

O MEU AMOR EXISTE


O meu amor tem lábios de silêncio

e mãos de bailarina
e voa como o vento
e abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
a galopar no peito
e um sorriso só dela
que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura

O meu amor ensinou-me a partir
nalguma noite triste
mas antes, ensinou-me
a não esquecer que o meu amor existe 

JORGE PALMA, in "SÓ" (1991)






https://www.youtube.com/watch?v=EwmxS2vWlJI





                                          Lola

Gente



Gente
O que é preciso é gente

gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly, "Um Calculador de Improbabilidades"




                                         Lola

Coisa Amar




Coisa Amar


Contar-te longamente as perigosas

coisas do mar. Contar-te o amor ardente

e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre

                     
                  Lola


Nudez


Nudez
A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez

é como um barco subitamente entrado pela barra.

Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo

para um lado misterioso e frágil.

Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas

com o vocabulário da tua nudez.

Tenho "um pensamento despido";
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.

E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete

que lanço com mão tremente desastrada

para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,

trinta dias enquanto dura um mês

eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.


Fernando Assis Pacheco




                                           Lola