quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Nunca...






Nunca...


NUNCA ME TINHA APAIXONADO VERDADEIRAMENTE
.
Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. 
Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. 
Adormeci a olhá-la. 
Adormeci com ela dentro de mim.
.
Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois, o tempo. Sempre o tempo como uma brisa. Uma aragem suave, mas definitiva, a empurrar-me os sentimentos, a deixá-los lá ao fundo e a mostrar-me na distância que eram pequenos, muito pequenos e sem valor. E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. 

Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. 
Arrependi-me sempre das palavras.

JOSÉ LUÍS PEIXOTO,
 in UMA CASA NA ESCURIDÃO 
(Quetzal, 2009)



Lola

domingo, 17 de dezembro de 2017

Último Poema






Último Poema


É Natal, nunca estive tão só. 
Nem sequer neva como nos versos 

do Pessoa ou nos bosques 
da Nova Inglaterra. 
Deixo os olhos correr 
entre o fulgor dos cravos 
e os dióspiros ardendo na sombra. 
Quem assim tem o verão 
dentro de casa 
não devia queixar-se de estar só, 
não devia. 



Eugénio de Andrade, (1923 // 2005) 
in 'Rente ao Dizer'




                                           Lola

Natal




Natal


Natal fora da casa de meu Pai, 

Longe da manjedoira onde nasci. 
Neve branca também, mas que não cai 
Na telha vã da infância que perdi.

Filosofias sobre a eternidade; 

Lareiras de salão, civilizadas; 
E eu a tremer de frio e de saudade 
Por memórias em mim quase apagadas... 
.
Miguel Torga 
In "Diário VI"




                                           Lola

sábado, 16 de dezembro de 2017

Quase Natal






Quase Natal

É Natal desde o final de outubro.
 As luzes acendem-se sempre antes, 
enquanto as pessoas estão cada vez mais intermitentes. 
Eu gostaria de um dezembro com as luzes apagadas
 e com as pessoas ligadas.

- Charles Bukowski



                                           Lola

Medo



Medo

A rapariga que tem medo

Nos dedos mistura o pão e o ovo
com as carícias à cara do namorado.
Lição: das unhas sai afecto e sujidade. Nada é só

uma coisa, há vários lados.
Os dois murmuram palavras
que saem do pouco espaço deixado pela comida.
Como um entende o outro, ninguém sabe.
Os corpos entre si encontram equilíbrios por vezes estranhos.
Ele tem óculos redondos e cara e olhos
de quem não está em mais lado nenhum.
Ela não: vê-se que conhece a distância
que a alma deve guardar ao outro
para sobreviver em caso de tragédia.
Terá já conhecido o modo como toda a eternidade
terrestre termina.
Nas carícias os dedos não se encontram cheios.
O medo de ser de novo abandonada assustou a carne
até aos pulsos;
se o machado vier certamente sairá sangue;
porém a alma jamais será caçada.

Nessa rapariga não são claros nem corajosos os dias.


Gonçalo M. Tavares.



                                            Lola

Pedro



Pedro
Não falava mal de ninguém. Misterioso, secreto, muito raramente mostrava o que sentia e, apesar do seu silêncio imperturbável, percebia-se que gostava de nós, sem palavras, sem pieguices, sem exibir emoções. Não se queixava de nada conforme, aparentemente, não se zangava com quase nada
Hoje, catorze de novembro, é o dia dos anos do meu irmão Pedro, uma das pessoas que mais amei no mundo, o único de nós que saiu moreno, de cabelo preto, quase sempre calado. Nunca invejou ninguém: era livre. Nunca disse mal de ninguém: era livre. Nunca discutiu com ninguém: era livre. Fez sempre, desde criança, o que quis: era livre. Não lhe interessava o dinheiro, nem o sucesso, nem o aplauso dos outros. Não criticava fosse quem fosse. Não falava mal de ninguém. Misterioso, secreto, muito raramente mostrava o que sentia e, apesar do seu silêncio imperturbável, percebia-se que gostava de nós, sem palavras, sem pieguices, sem exibir emoções. Não se queixava de nada conforme, aparentemente, não se zangava com quase nada. A pouco e pouco os pais foram-se apercebendo que não valia a pena enervarem-se com ele. Não lhes respondia que não, concordava sempre.
– Sim, mãe, sim pai
mas apenas fazia o que lhe dava na gana, sem argumentar.
– Isto não é hotel, Pedro
– Sim, mãe
– O jantar é às oito e meia, Pedro
– Sim, mãe
telefonava a dizer que chegava mais tarde, a mãe
– Mas onde é que tu estás, Pedro?
– Do outro lado da linha, mãe
e como é que se lhe podia ralhar depois disto? Aliás era inútil ralhar--lhe porque ele não protestava. No fim da descompostura concordava sempre
– Sim, mãe
numa serenidade amável que impedia exaltações e castigos. Uma ocasião fiz-lhe uma coisa horrível: tinha pedido que fosse lá abaixo à mercearia comprar-me papel para escrever, eu com catorze anos e ele com onze, respondeu-me tranquilamente sentado no tapete, a brincar com não sei quê
– Não vou
calmíssimo
– Não vou
eu ameacei, com medo que, indo eu à mercearia, se me acabasse a inspiração
– Se não vais digo ao pai que tu fumas
o Pedro nem se deu à perda de tempo de falar, indiferente àquela maldade estúpida
(o que eu continuo a arrepender-me dessa sacanice)
ameacei-o de novo
– Se não vais digo ao pai que tu fumas
ele continuou a brincar, completamente nas tintas, tive de ir buscar o papel e a inspiração acabou-se de facto, à hora de jantar o pai sentou-se à cabeceira, eu, furioso com a morte de uma obra prima, interrompi o silêncio da sopa
– Pai o Pedro fuma
o silêncio, se possível, aumentou ainda mais, à medida que eu começava a torcer-me de remorsos
(fui um cabrão)
enquanto o pai para ele, na esperança que o Pedro negasse
– Tu fumas, Pedro?
novo silêncio enquanto eu com ganas de me enforcar no candeeiro do tecto(nunca na vida fui
tão cabrão)
no silêncio a voz do pai a insistir
– Tu fumas, Pedro?
esperando que o Pedro negasse, pedindo a Deus que o Pedro negasse, o pai que odiava a mentira, suplicando que o Pedro negasse, o Pedro na tranquilidade de sempre
– Fumo, pai
mais silêncio durante o qual o pai me olhou com ódio, o pai de novo, num suspiro
– Tu fumas, Pedro?
o Pedro na mesma paz inalterável
– Fumo, pai
um silêncio ainda mais comprido, que eu devia ter aproveitado para me suicidar, o pai num suspiro
– Poisa a colher no prato e espera-me lá em cima
o Pedro, na paz do Senhor, poisou a colher e subiu as escadas, o pai levantou-se vertendo um olhar suspenso na minha direção enquanto atirava o guardanapo para a toalha, voltou passados minutos a detestar-me, o Pedro não voltou, no fim do jantar mais horrível da minha vida levantámo--nos cada um para seu lado, a porta do quarto do Pedro estava fechada, encontrei-o na manhã seguinte antes de sairmos para o liceu, ele falou-me como se nada tivesse acontecido, o pai demorou dias sem olhar para mim, eu demorei dias sem conversar com ninguém, feito em merda pela minha filha da putice e o Pedro seguia igual. Não sei se me perdoou: sei que esqueceu, e continuou a amar-me muito, conforme eu o amava muito a ele. Que eu soubesse não odiava ninguém: era um miúdo livre. Quando morreu saí do quarto dele no hospital porque o meu irmão Nuno me trouxe abraçado a dizer-me
– Anda bebé, anda meu bebé
de maneira que além de filho dos meus pais nesse dia fui filho do Nuno. E gostei. Manos queridos. A maior manifestação de amor entre nós era fazermos chichi juntos, à noite, para a cascata. Agora mijo sozinho. Infelizmente.

António Lobo Antunes
(Crónica publicada na VISÃO 
- 1292, de 7 de Dezembro de 2017)


Lola

sábado, 9 de dezembro de 2017

Mãe de Natal





Mãe de Natal


Gosto de ser Mulher!
Adoro, sobretudo, ser Mãe!
Reconheço porém, todo o emaranhado de sentires e existires nesta caminhada íngreme, neste percurso sinuoso de potenciar, quase que recorrentemente, momentos de elevada e delicada ternura com pedaços de tempo de um sofrimento amargamente atroz!

De que são feitos os sonhos de Mulher?
Pergunto-me, demasiadas vezes, em alpendres que me protegem dos cinzentos e frios dias que antecedem e precedem os dias de Natal, se o imaginário comporta tanto desejo, se o pensamento suporta tanto orgulho desmedido, se a alma colorida não deixará extravasar tanto mar de possibilidades inventadas e docemente esperançadas!
Os dias de uma mulher envolvem secretos e indizíveis medos, mágoas escurecidas pelo tempo, enormes lembranças de momentos idos e, talvez, não vividos, loucuras efémeras, vagueza de felicidades, momentâneos lampejos do inefável!
Em choros de violência ensurdecida pela ameaça intimidatória, gritamos a prepotência que revolta e enfraquece a nossa dignidade de Pessoa, envolvidas em corpo rosáceo de Mulheres!
Dentro de uma Mulher cabem todas as mudanças antecipadas, esperanças de utopia, desprazeres indesejados, inseguranças recorrentes…desenlaces incompreendidos!

Junho de Verão!
Naquele mês estivemos, por razões de serviço na escola, mais juntas, mais necessariamente próximas em diálogos de vida e família que aliava sorrisos e inquietudes demasiadamente angulosas!
Flor era uma delícia de Mulher!
De atitude aberta ao mundo, de voz encantadoramente doce e serena, a todos cativava pelo seu carácter acetinadamente maternal ou, apenas, de pessoa invulgar e, improvavelmente, boa! Nela sempre vislumbrei a incomensurabilidade da ligação à família, aos filhos, o seu amor estonteante por todos aqueles que a rodeavam!
Flor, sem o saber, fazia-me muita, mesmo muita falta…mas naquele dia teve de ir embora e agora rareavam os encontros dialogados, embora a distancia onde vivíamos fosse a pouco mais que uma centena de metros, se tanto!
Muito comedida na sua vida profissional e familiar, era com enorme orgulho que, de vez em quando a via de mão dada com Pedrinha, a neta que já iniciara, em si mesma, o prolongamento dos coloridos laços dos seus filhos. Pedrinha era a imagem ternurenta do papá. De carita redonda e olhos verde azeitona, sorria com desenvoltura e no seu vocabulário rico e educação esmerada, cumprimentava-me e falava dos seus gostos de menina de infância já convertida em interrogação de sentido(s) de e para a vida!

Lembro bem…
naquela quarta feira, o telemóvel tocou e Pedrinha antecipou um sorriso desmedido para ouvir a voz daquele de quem tanto gostava mas que as circunstâncias não deixavam aproximar mais que uns exíguos quatro minutos de partilha de voz inebriadas de amor e muita, muita saudade. Afastei-me um pouco para não hipotecar a privacidade dos afectos que, em meu entender, não têm que ser minimamente vulgarizados, sob pena de resultarem numa mediocridade pouco consentânea com  lugares da infância!

Antes, porém, de sair da sala onde nos encontrávamos, disse a Pedrinha:
-Diga-lhe que lhe envio um abraço… e aí senti o retorno de um afecto verdadeiramente distante.
Como lembra o filósofo espanhol Ortega y Gasset “Nós somos nós e as nossas circunstâncias”, cada vida cada ser, tem de desdobrar-se, ao longo da existência num conjunto de condicionantes que nos recebem e um reportório de possibilidades que, de forma arriscada mas não menos exuberante, teremos de enfrentar. Cada vida é em si mesma problemática e problematizante, grávida de sentidos futuros, inventando o seu próprio porvir.

Porém, para Flor o pretérito da sua vida e de Pedrinha era assustadoramente saudoso!
Fora um dia de Outubro que lhes sobressaltara a existência…
Novembro continuara dramaticamente tenebroso e inseguro!
Flor não queria mediatismos, exigia respeito e privacidade mas o mundo estará sempre sedento de “circo”, de notícias, de mediatismos que vendem e a ela não lhe concediam o sempre almejado recato que irremediavelmente a caracterizava!
Um dos seus fora privado de liberdade!
Não podia acreditar. Como podia ser…a vida que é e que podia ser estava ameaçada, brutalmente endurecida, fatalmente retalhada pela ausência forçada do seu amor incondicional – o seu filho Mar.
 Daí para a frente restavam-lhe as visitas, os sorrisos, a força que se tem de partilhar mesmo quando escasseia, o encontro entre Flor, Pedrinha e o Mar!
Eram tempos espinhosos para todos, mas Flor nunca desistia. Quinzenalmente fazia o caminho ansiosamente longo para, através de um vidro, poder olhar, falar, sorrir, talvez colocar a sua mão sobre a mão do seu filho Mar que nem mesmo o vidro do interdito evitava que sentisse o brilho do seu grande amor!
Ninguém elege o seu mundo, nem sei bem se há destino e como conciliar esta possibilidade com o livre-arbítrio! Sei que perante as circunstâncias e a decisão há que, incansavelmente, assumirmo-nos como projecto que não se pode equiparar, de forma alguma, à mecânica.
Agora Flor, Pedrinha e Mar estavam disparados em existências amargamente distantes mas nunca descansadas e muito menos desistidas! Ambos estariam dispostos e forçados a exercitar a liberdade dos afectos nos momentos em que a interdição pudesse permitir!
                                                                                                               
De que são feitos os sonhos de uma Mãe?
Outono de Novembro!
Início do mês que traz consigo o enfrentamento, os testemunhos, a prova, o “circo mediático”, tribunal, recordação, amor incondicional de mãe!
Chove!
Acordo pela manhã e o meu pensamento desliza, imediatamente, para Flor e Pedrinha. Como estarão? Que ansiedades vivem? Que amarguras sentem? Que situações e decisões antecipam? Sim, porque ali está Mar- o amor incondicional de Flor, o papá querido de Pedrinha, um ser que nos faz reflectir acerca da fronteira ténue entre o comportamento quotidiano vulgarmente apelidado de “normal” e um outro que, muitas vezes poderemos não conseguir explicar, mesmo que para o senso comum o inexplicável seja sempre, imediata e superficialmente, entendível!
Hoje queria estar contigo, Flor!
Minha querida Mãe sem Natal!
Para te dizer que separar-se de um filho é uma dor infinita, para te abraçar e partilhar o sentir de mãe que nos transforma em seres de uma resistência insuperável!

Para te dizer que acredito, acredito mesmo que um dia esse vidro que vos separa se vai estilhaçar para que e, irremediavelmente, tu, o Mar e a Pedrinha possam sentir-se no calor do vosso grande amor!
Para quando o Mar azul e as Pedrinhas brincando na areia?
Para quando a Mãe de Natal?




                                            Lola