domingo, 20 de setembro de 2020

António Lobo Antunes e a Religião



António Lobo Antunes e a Religião


Em entrevista a António Lobo Antunes:

"- A propósito do rezar de Orson Welles, qual é a sua posição sobre a religião?
- Há um velho provérbio húngaro que diz: "Na cova do lobo não há ateus." Eu julgo que não existe quem não acredite, porque o Nada não existe na Física ou na Biologia e quando se lêem os grandes físicos - Einstein, Max Planck e por aí fora -, vê-se que eram homens profundamente crentes. Chegaram a Deus através da Física e da Matemática e falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso - e cada vez mais -, embora não no sentido desta ou daquela Igreja mas naquele que me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez o é mais para mim.
- Porquê?
- É um bocado como quando o Einstein - lá estou eu a citar outra vez! - diz que "Deus não joga aos dados"... É claro que eu me zango com Deus, é uma relação de zanga também porque Ele permite sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tal profundezas que não consigo atingir. O sofrimento sempre me foi incompreensível e acho que, como disse há pouco, nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa e não estou a falar de Igrejas mas de Deus. Não acredito quando as pessoas me dizem que são agnósticas ou ateias! Não acredita nisso, não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela, em qualquer ponto, há algo. Uma vez perguntaram ao Hemingway se ele acreditava em Deus e a resposta foi: "Às vezes, à noite".
- E o António, à noite, também acredita?
- Acredito sempre, mas zango-me muitas vezes. Eu julgo que o próprio da fé é a dúvida, o questioná-la constantemente, e muitas vezes pergunto-me se existe. É óbvio que sim."
De profundis.


                                                 Lola
 

domingo, 26 de julho de 2020

A escola


A minha escola primária (Cerco do Porto)
A escola
A escola é um meio para querermos o que não temos. A vida, depois, nos ensina a termos aquilo que não queremos. Entre a escola e a vida resta-nos ser verdadeiros e confessar aos mais jovens que nós também não sabemos e que, nós, professores e pais, também estamos à procura de respostas.

Mia Couto
Em "Os sete sapatos sujos"
Escola é uma palavra exageradamente doce...
porém, sem cor, pois está envolvida de um colorido infindável e de uma ternura tão macia que todos os olhares sentidos nunca conseguirão abranger!
A escola é espaço e tempo de belissimas, misteriosas e entranhadas estórias de vidas e sonhos vindouros!
Adoro a escola!
A minha escola de hoje.
Lola

Acorda. Vem Até ao mar.




Acorda. Vem Até ao mar.

Acorda. Vem
Até ao mar.
As ondas têm
Um vago amar.
Há um calmo fim
Ao pensamento
No mar, assim
Cessado o vento.
A hora salga
De calma a dor…
Uma e outra alga
Doem-lhe à flor…
Vem tão comigo
Por tal caminho
Que eu contigo
Me creia sozinho…
Tanto pertenças
Ao meu pensar
Que as duas presenças -
Tua e do mar -
Não sejam mais
Que a calma triste
Sem nexo ou ais
Que em mim existe…
Ah, desejar!
Amar, sofrer!
Eu, tu e o mar…
Como dói ser!
Vem ajudar
Meu pensamento
A dispersar
P’lo mar sem vento.


Fernando Pessoa,
2-10-1915
In "Poesia 1902-1917"




                                                Lola

Este Rio



Este Rio

Este rio que traz o mar cá dentro
e sendo mar não deixa de ser rio
este rio com margens que são centro
e sendo margens são nosso navio.

Este rio que volta quando parte
e quando parte leva as suas margens
este rio que vai a toda a parte
e mesmo em casa é todas as viagens.

Este rio que sabe a mar profundo
e dentro da cidade é rua e rio
e em cada rua dá a volta ao mundo
e de Lisboa fez nosso navio.

04-02-2017

Manuel Alegre, em "Bairro Ocidental” (2015)

                                                Lola

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A grandeza da mãe Paula




A grandeza da mãe Paula

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·         Se perdesse uma filha num homicídio brutal, seria capaz de perdoar? E se o homem que a matou pusesse termo à vida, seria capaz de enviar condolências à família do assassino?

Estas são perguntas com as quais ninguém devia ser forçado a deter-se. Que inquietariam qualquer pai ou mãe. Estas são perguntas hostis de resposta tortuosa. Beatriz Lebre foi morta de forma cobarde por Rúben Couto, com quem mantinha um relacionamento amoroso. O seu corpo foi lançado ao rio Tejo e, cerca de um mês depois desse dia terrível, o homicida confesso pôs termo à vida na prisão. Mas nesta história trágica avulta uma lição maior. A da mãe da vítima, Paula Bochecha Lebre. "As minhas condolências à família de Rúben Couto. Não é possível medir sofrimento, mas uma morte é uma morte. Quando morre uma criança ou um jovem é sempre uma perda para as famílias como para a sociedade", escreveu ela no Facebook, abrindo o peito frágil de mãe, mas mantendo inviolável a decência e um profundo sentido de humanidade que não a deixa defender a pena capital. Ainda que fosse entendível que a desejasse para o carrasco da filha. "Prefiro um culpado livre do que um inocente no corredor da morte".

Perderam-se dois jovens em circunstâncias dramáticas. Sobrou uma dor corrosiva para as famílias. Mas ficou-nos como curativo espiritual e sobressalto cívico esta enorme, enormíssima, dádiva de Paula. Ter a capacidade de preservar os valores morais, civilizacionais, mesmo que habite nela uma dor infinitamente maior do que o corpo, é de uma grandeza ímpar e, por isso, merecedora da nossa vénia. Num mundo tão ensimesmado com futilidades, tão desgastado por ódios boçais e vaidades fátuas, tudo seria melhor com pessoas como Paula, com mulheres como Paula, com mães como Paula.
Senhor presidente da República, quer condecorar um português verdadeiramente merecedor? Ei-lo: chama-se Paula Bochecha Lebre, cidadã extraordinária.

Pedro Ivo Carvalho
JN, 8 de Julho de 2020




Eu, que sei de cor a dor de perder uma filha, sensivelmente da mesma idade, ainda que não devido à brutalidade assassina de outrém...
...não sei mesmo se 
conseguiria perdoar o autor de tamanha e amarga dor!



                                                Lola

segunda-feira, 29 de junho de 2020

PROCURA-SE UM AMIGO


Sarah Affonso


PROCURA-SE UM AMIGO

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
Vinicius de Moraes.

Só fica pendente um desejo que estará sempre e, incondicionalmente, relacionado com o amigo....


Preciso de um amigo que....
saiba envolver-me num enorme e infindável....


ABRAÇO!


Sarah Affonso

Lola

sexta-feira, 29 de maio de 2020

QUARENTENA



QUARENTENA

Na pior hora da pior estação
do pior ano de todo um povo
um homem saiu do albergue com a mulher
e caminhou- caminharam os dois - para norte.

Ela estava doente com a febre da fome e não o conseguia acompanhar.
Ele levantou-a e colocou-a às costas.
E caminhou assim para oeste, para oeste e para norte,
até ao anoitecer, sob as estrelas geladas.

De manhã, os dois foram encontrados mortos.
De frio. De fome. Das toxinas de toda uma história.
Mas os pés dela apoiavam-se no esterno dele.
O último calor da sua carne foi o último presente para ela.

Que nenhum poema de amor jamais chegue a este limite.
Não há aqui lugar aqui para o impreciso
louvor da elegância e da sensualidade do corpo.
Apenas tempo para este inventário impiedoso:

A sua morte no inverno de 1847.
O que sofreram. E como viveram.
E o que existe entre um homem e uma mulher.
E em que escuridão se pode ver melhor.

Eavan Boland e Dorothea Lange


Eavan Boland foi uma poetisa irlandesa: 1944-2020. A tradução é de Jorge de Sousa Braga.

Dorothea Lange foi uma fotógrafa norte-americana, que na década de 30 do século XX fotografou camponeses e outras pessoas pobres para documentar os efeitos da Grande Depressão. É autora de uma das mais célebres fotografias da história: “Mãe Migrante”, de 1936.


Porque interpretei o titulo à luz dos tempos que convivemos com o aparecimento do Covid 19....as imagens que coloquei foram estas...

Afinal, a quarentena sentida no poema é a quarentena na plena acepção da palavra...um periodo de isolamento de abundancia....mas pleno do toque de afectos....

Um AMOR eterno!


                                               Lola