terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Fernando Pessoa


Ode marítima
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É – sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
Fernando Pessoa

Lola

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Momento


MOMENTO

Aquele dia acordara soalheiro! 
Era, mais uma vez, de rotina matinal, porem a tarde revelava-se, para Rita e Pedro, uma sequência de momentos diferentes dado que iriam a uma conferência da empresa onde trabalhavam hà vàrios anos.
Eram amigos, demasiadamente amigos! De uma relação genuina, com respeito de olhares e interpretação de gestos desinteressados mas sem serem, de modo algum,  desinteressantes!
Rita tivera uma vida amarga de saudade em perdas irreparaveis, vivera momentos de violência em palavras rudes e gritos estridentes que de tão inesperadamente fortes tinham deixado marcas na alma de quem apenas gostava de paz e sorria a momentos de serenidade que cada vez mais iam rareando na sua vida desejavelmente pacata e sem sobressaltos.
De Pedro pouco sabia mas também era o que menos a perturbava. Bastava-lhe saber que em determinados momentos ele estava ali num apoio incondicional, por vezes, silencioso, mas que engrandecia a força que Rita nunca encontrara em ninguém!
Lembrava-se, perfeitamente, do primeiro dia que o vira entrar pela porta da empresa com ar de insegurança face a um mundo diferente, longinquo e desamparado! Notara-o porque teriam de partilhar a mesma secção da empresa que ela chefiava e isso obrigaria a contactos permanentes em termos profissionais!
Um dia coincidiram num momento de pausa para almoço e falaram de aspectos da vida pessoal sem limitações de linguagem ou de expressão de afectos, alguns jà dolorosamente passados e parcialmente apagados!
A partir dai não mais voltaram a esse quadro de vida passada e presente o que de certo modo elevava uma relação interessante mas totalmente impossivel de adjectivar com palavras fixas, seguras e limitadas!
O dia manteve-se soalheiro e...
... foi sorrindo ainda mais quando, no inicio da tarde, juntos, partiram para a reunião profissional que demoraria um percurso de conversa espontânea, variada, animada, cumplice e verdadeiramente envolta em improvisos e gargalhadas.
Rita sentia-se profunda e delicadamente liberta de uma pressão que tanto a sufocara  em amarras que ela propria, no seu intimo, nunca aceitara e que, por isso mesmo, se pintaram, muitas vezes,  em làgrimas de um amargo incolor. 
Naquele dia era diferente!
Sentia-se segura, apoiada, comoda e serenamente acompanhada num diàlogo que hà muito se notava ter mais de comum que de distancia  em relação ao mundo e à vida.
Quase sem dar por isso chegaram ao espaço reservado e ali mesmo, passadas as formalidades inevitaveis, pousaram demoradamente o olhar e estenderam o momento pela paisagem num cigarro que se tornou a unica testemunha de uma tarde agradavel e que deslizava delicadamente pelos recantos do espaço sumptuosamente decorado e magestosamente localizado na colina do casario que se deitava, mesmo ali à sua frente!
 E porque o momento convidava, antes mesmo do evento profissional, afinal o unico objectivo deste percurso alegremente partilhado numa cumplicidade invulgar, Rita e Pedro tomaram um "drink" não desistindo de continuar a conversa agradavel e do olhar comprometido com a envolvência que descia de modo geometricamente equilibrado até ao rio da parte velha da cidade!
Momento a momento o tempo foi deslizando num regresso agradavelmente partilhado em dialogo de palavras abertas e fluidas, saltitando de tema em tema como que se não houvera outro momento tão prazeroso!
Chegados, Rita deu um beijo a Pedro e agradeceu os momentos continuados de uma 
serenidade hà muito arredada da sua vida.
Para Pedro este teria sido, provavelmente, apenas mais um dia, mas isso, para ela, não  fazia diminuir a solenidade e elevação de estar com uma pessoa interessante, integra e serenamente maravilhosa! E isso, sim, era demasiadamente importante para que Rita procurasse  ler sentires e pensares que não o seu!
Por isso...
... quando a viagem parou devagarinho, Rita não olhou para tràs e caminhou apressadamente como que ainda perseguida pela temerosa intranquilidade  de tantos anos!
Pedro fez a viagem de regresso... 
... e a cidade, là longe, adormecia suave e delicadamente sem saber ter sido, nesse dia, a  anfitriã privilegiada de um dos momentos mais doces e suaves da vida de Rita!




Nessa noite, 
Rita adormeceu abraçada a esta balada... 
Ao fundo do quarto um guarda chuva amarelo teimava em desiquilibrar-se e na mesinha redonda, mesmo ao lado da sua cama, um sabonete cuidadosamente  embrulhado em papel colorido  olhava-a num cheirinho a PHILOSOPHIA!

Sorriu... 

Era mesmo  feliz!...







                                          Lola 







domingo, 1 de dezembro de 2013

Mar e Amor



Mar e Amor
Amor e Mar



Amor é Mar

O amor é tão grande como o mar
Tão forte e de um encanto infindável
Até é capaz de matar
O amor é tão belo como o mar
Onde adultos são crianças
Os olhos brilham, o coração acelera,
A existência tem outro sentido diante do amor
A perfeição tem outra visão diante do mar
A vida tem outros valores diante do amor.

Tal como o mar, o amor se renova em ciclos
no mar são as marés, que sobem e abaixam as águas
no amor, são os pequenos sinais, as delicadezas
o respeito, a afeição pelo outro, as lembranças
que vão edificando um sentimento maior que o mar
maior que o próprio amor, acelerando com a idade
sendo tão bondoso que abre mão de si mesmo
quando deixa de ser uma paixão
para se tornar cumplicidade.

Em frente ao mar, contemplo as ondas no vai e vem sem fim
e tenho esperanças, que assim como as ondas

o amor que se foi, pode dobrar, ou se renovar
e assim como estou diante do mar
poderei estar diante de um novo amor
para um reiniciar, num indo e vindo infindo
como o próprio mar, como o próprio amor.

Fernando de Sousa Pereira











Lola





Professor de Filosofia




PROFESSOR DE FILOSOFIA


Coimbra, 20 de Novembro de 1971 - Jà tremo , quando o vejo entrar. Fala, fala, fala, e, no fim do soliloquio, que nenhum enfado monossilàbico consegue esmorecer, fico sempre com a impressão de que perdi o meu rico tempo a ouvir pela milésima vez um disco arranhado. As pessoas,aqui, aprendem uma lição qualquer - a do catecismo, a do marxismo, a do fascismo,, a do existencialismo, e a mais recente do estruturalismo, e repentem-na incansavelmente enquanto o fôlego as não abandona.E os proprios juizos que formulam - religiosos, politicos, filosoficos, literàrios ou outros - , não passam de confrontos.
Tudo o que confirma a lição, està certo. tudo o que a contraria, errado. As vezes acontece soar na monotonia do cantochão, que, de tão familiar, sabemos de cor, uma voz que parece vestida de lavado. Olà! E arrebitamos a orelha. Mas foi rebate falso, mera alucinação auditiva. (...)



Miguel Torga - Diàrio XX.

E nos que professores de filosofia somos?

Que exigências pedagogicas deverà ter um professor de Filosofia?

O que esperam os alunos de um professor de Filosofia?

Como manter uma aula simultaneamente alegre e motivadora, reflexiva e interventiva?

Que coerência de valores lhes passamos nos?

Que toleräncia vivenciamos com os alunos?

Que perspectivas de futuro lhes transmitimos?

Com que convicção?






 Lola




terça-feira, 26 de novembro de 2013

Amor


O Amor




Serà esta a relação ideal?

O Amor



O AMOR, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar p'ra ela,

Mas não lhe sabe falar.


Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Fernando Pessoa



E o Amor em Platão?


Em Platão (427 a.C. - 347 a.C.), o amor é a busca da beleza. Embora tenha início da realidade física, deve alcançar a sua forma universal, não permanecendo prisioneiro da matéria. É vulgar confundir o amor platônico com o amor não correspondido ou desprovido de interesse sexual. Na realidade, o filósofo não exclui o amor carnal, porém  vê-o como um primeiro degrau que pode levar a outros mais elevados.


No prólogo do livro, utilizando um artifício literário, o narrador esclarece que não tomou parte, propriamente, daqueles acontecimentos, mas ouviu detalhes da sua história em colóquio com outro personagem. Após os convivas concordarem que deviam beber com moderação, pois tinham-se excedido na noite anterior, dá-

se então início aos discursos sobre o amor.As várias faces de Eros revelamse nos discursos que ilustram O Banquete, obraprima da literatura ocidental. O livro narra um encontro em casa do poeta  Agáton, do qual tomam parte Sócrates, Fedro, Alcebíades e outras figuras atenienses. O encontro tem como objetivo comemorar a premiação de uma peça teatral do anfitrião, e os presentes escolheram Eros como tema inspirador dos discursos da noite.


No relato de Pausânias aparecem duas formas de amor, geradas por Afrodite, deusa grega da fecundidade e da beleza. Afrodite tem dupla face, ou, de acordo com os estudiosos da mitologia, são duas Afrodites: a Celestial, filha de Urano; e a Popular, filha de Zeus e Dione.



Como acontece em outras narrativas platônicas, Sócrates surge como o personagem que realiza a síntese das ideias e sentimentos do autor. N'O banquete ele inspira-se em  Diotima de Mantineia , sacerdotisa do amor, para ilustrar o seu discurso. Não se sabe ao certo se ela é uma criação de Platão ou personagem da mitologia, mas deste entrelaçamento surgem as mais belas páginas da literatura grega. Aristófanes,personagem conhecido entre os atenienses pela sua dramaturgia, defende que o amor é a busca da outra metade que se perdeu por castigo dos deuses. Havia no mundo três tipos de seres humanos: um formado só de duplos elementos masculinos, outro só de duplos femininos e por último um misto de elementos masculino e feminino. Esta era uma figura andrógina. Os seres duplos transgrediram a ordenação dos deuses e foram divididos ao meio. Por isso, o amor é a busca da outra metade que se perdera, o que revela a incompletude humana.

Eros é aí descrito como um daimon, intermediário entre os homens e as coisas divinas. "Ao gênio cabe interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses; de uns, as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos, ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. (...) E esses gênios, é certo, são muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor."



RUMO AO AMOR ESSENCIAL

Na escalada rumo ao amor essencial, outras etapes se tornam necessários. Do amor às formas físicas belas à própria beleza, independente da forma. Há ainda o amor ao conhecimento e às boas práticas, o que pode ser interpretado como uma adesão aos princípios éticos. A sacerdotisa Diotima associa o amor à imortalidade e afirma, no diálogo com Sócrates, que o amor é o "desejo de procriação no belo".

Apesar da visão fulgurante contida nessa narrativa, o idealismo platônico deprecia o corpo e o mundo real. Ele concebe os seres humanos como se estes fossem anjos caídos  num mundo degradado.
A dívida da Filosofia para com Sócrates/ Platão é enorme. 
Para Sócrates, especialmente, o diálogo levava ao conhecimento da verdade. Ele contava com um método próprio para analisar os variados assuntos que lhe eram apresentados: a dialética (arte do diálogo), juntava-se a outro artifício intelectual criado por ele, a maiêutica (parto das ideias).







 Lola


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Abraço



                                         Abraço






La duración media de un abrazo entre dos personas es de 3 segundos. Pero los investigadores han descubierto algo fantástico. Cuando un abrazo dura 20 segundos, se produce un efecto terapéutico sobre el cuerpo y la mente. La razón es que unabrazo sincero produce una hormona llamada "oxitocina", también conocida como la hormona del amor. Esta sustancia tiene muchos beneficios en nuestra salud física y mental, nos ayuda, entre otras cosas, para relajarse, para sentirse seguro y calmar nuestros temores y la ansiedad. 
Este maravilloso tranquilizante se ofrece de forma gratuita cada vez que tenemos a una persona en nuestros brazos, que acunamos a un niño, que acariciamos un perro o un gato, que estamos bailando con nuestra pareja, cuanto más nos acercamos a alguien o simplemente sostenemos los hombros de un amigo






Lola


Beijo





 Beijo




BEIJO

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

MIA COUTO - "Tradutor de chuvas"



                                                                        










“A popularização da arte. A sua entrada no domínio público. Uma certa forma de a virar do avesso para se saber o que há lá dentro e se expor ao sol. Qualquer coisa assim, não sei. E neste modo de não ser em recato, a perda do sagrado, a sua profanação. E isto acompanhado de análises críticas, de explicações, de uma forma de lhe invadir a sua intimidade. Não se faz ainda amor em público. Na arte já se faz. Virá também daí a sua dissolução? O artista ainda se isola para se cumprir. Mas é quase uma formalidade imediatamente desfeita na sua popularização. Não. Não é isso. Não se trata de que o grande público seja excluído do acesso à arte, que para isso é que existem, por exemplo, os museus. Trata-se de ela ser exposta ao sol, de ela ser uma mercadoria como o papel higiénico, de se falar de arte pública como de uma mulher pública. Trata-se de lhe destruir o que há nela de sublimidade e recato e discrição e mistério. Trata-se de a neutralizar, de a obrigar a praticar o nudismo. Ou uma coisa assim”.

Vergílio Ferreira, Pensar