quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Tanto tempo...




Tanto tempo...

Não sentes a Saudade
nem o corrupio dos nossos passos
 pelo corredor manhã cedo?

Não vês as aguas do Mar misturar o meu cabelo
 já de si desalinhado 
nem o vento toldar o meu olhar  perdido na distancia?

Não vês as escadas soalheiras do abraço 
nem o vazio que as  palavras sendo tuas,
em mim deixaram?

Não vês o meu acordar sem o sol brilhante 
nas janelas do nosso horizonte 
nem o entardecer nos campos despidos de folhas que se amontoam nos caminhos?

Não sentes o calor das palavras que nos aproximam
nem os risos das situações que se contam numa (e)terna empatia?

Não sentes que o frio deste inverno cristaliza sentires 
nem o orvalho da noite que prolonga sonhos em afectos simplesmente inadiáveis?

Não sentes que o tempo avança num turbilhão de mar
e que o vento junto a ele me lembra, continuadamente, da vida sem um nos?

Tanto tempo...

Não estás a sentir esta alteridade frágil do eu outro
aqui tão juntinho do outro eu
ou apenas do meu coeur ...
... que te visito em cada amanhecer 
que desfalece sorrindo 
num entardecer de luz?


Não vês que aqui já há um pouquinho de Natal?

Tanto tempo...









                                              Lola

domingo, 6 de dezembro de 2015

Queria...






Queria...



Apesar do novelo em que a vida nos enrola
apesar do efémero em que cada gesto se torna
apesar de cada linha que nos une se tornar infinita
Hoje 
aconteceu mais uma noite de veludo azul!
Revisitei o teu discurso
a tua sombra desenhando o espaço  no corredor
os quadradinhos do teu olhar sempre sereno e disponível
a tua mão que segura a esperança 
 que eu nunca...
nunca mesmo quero deixar dormir!
Hoje eu queria...

Sabes Pedro?

Queria que aqui estivesses.
Que corresses atrás de mim pelo campo verde frio
que me afagasses o rosto húmido do orvalho
Que apoiasses o meu sorriso no teu ombro.

Que me desses, um bocadinho,da candura  da tua voz
 doce,única e melodiosa.
Queria, somente por minutos...
descansar o meu rosto no teu olhar
 Queria-te a ti 
perto do meu ser e das minhas palavras guardadas
queria mesmo...
um pouco do teu existir anoitecendo
 tão  perto de mim!

 dormes,Pedro?

Então um abraço de BOA NOITE, my dear?






                                               Lola

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O que dizem os abraços


by Agostino Degas


O que dizem os abraços

Juntar as pontas dos ombros e dar algumas palmadinhas nas costas não é um abraço. Escrever "abraço" no fim de um e-mail também não é um abraço. Indiferente ao desenvolvimento social e tecnológico, um abraço continua a ser duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

Esses rapazes que aparecem com cartazes a oferecerem abraços nos festivais de verão têm graça e talvez sejam bem-intencionados, mas fazem publicidade enganosa. Não são os abraços que provocam as ligações, são as ligações que provocam os abraços. Um abraço não é apenas duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

Um abraço tem muita importância.

Quando eu era uma criança, teria talvez uns nove ou dez anos, o meu pai deu-me um abraço na cozinha da nossa casa. Era de madrugada porque essa era a hora em que, naquele tempo, se saía da minha terra quando se ia para Lisboa. O meu pai tinha uma operação marcada no hospital, estava vestido com as roupas novas e tinha medo. Enquanto me abraçava, o meu pai chorou porque, durante um momento, acreditou que podia nunca mais me ver. Os braços do meu pai passavam-me pelos ombros, a minha cabeça assentava-lhe na barriga, sobre o pullover. A lâmpada que tínhamos acesa por cima da cabeça espalhava uma luz que amarelecia tudo o que tocava: a mesa onde jantávamos todos os dias, o ar que ali respirámos em tantas horas anteriores àquela, em tantas horas ignorantes daquela. O meu pai usava um after shave muito enjoativo, barato, que alguém lhe tinha oferecido no Natal. Agora mesmo, consigo ainda sentir esse cheiro com nitidez absoluta.

A operação correu bem. Depois do susto, depois da convalescença, o meu pai voltou para casa com uma cicatriz grossa e roxa na barriga, ficava à vista quando a camisa lhe saía para fora das calças ou na praia, apesar de usar os calções exageradamente puxados para cima. Depois disso, tivemos direito a nove anos em que não voltámos a pensar em despedidas.

Durante muito tempo procurei em toda a minha memória: as lembranças de quando regressou da operação ou, depois, quando tínhamos a mesma altura ou, mesmo depois, quando ficou doente pela última vez. Mas abandonei as buscas, não consigo recordar outra ocasião em que nos tenhamos voltado a abraçar. Essa madrugada na cozinha, a luz amarela, o aftershave, foi a única vez em que nos abraçámos na vida.

Não afirmo com leveza que um abraço tem muita importância. Há quinze anos que escrevo livros apenas sobre esse abraço.


José Luís Peixoto, in Notícias Magazine,
 22 de novembro de 2015


Por tudo isto...
o Abraço é,  e continuará a ser, para mim, 
a expressão de afecto que mais me seduz, 
que me cura a distancia do teu ser, 
que me apazigua a saudade do teu sorriso, 
que me acalma a fronteira da tua voz suave e enternecedora...
...das lágrimas de menino feito homem pela rudeza da vida existencialmente vivida e 
filosoficamente pensada com carinho!

Envolves-me, por favor,
 mais uma vez...
 ...num abraço, esta noite?





                                             Lola





Olhar de Mar






Olhar de Mar




Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor

Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.


Sophia de Mello Breyner Andresen



E Tu?

tens uma voz de mar e espuma
um olhar de outono multicolor
um abraço inteiro e inquebrantável
uma serenidade de sorriso que me encanta
um perfume de distância que me invade
em noites de profunda 
e desejada solidão 
de ti...
de mim...
de nos!

Porque te sonho sem te pedir
te desejo aqui sem te dizer
te agarro num abraço sem te exigir!

Espero o teu ser na memoria de um encontro revisitado
tantas e tantas vezes!
Pensas em mim assim tantas vezes?
Não me surpreende o teu possível não!
Gosto de ter começado a gostar de ti...
...e gosto, devagarinho, cada vez mais! 

Porquê?


Os fundamentos ficam para a Filosofia
 que nos encontrou e nos encontra! 
Importas-te de me dar,
 devagarinho, se quiseres,
 a serenidade do teu corpo 
num abraço que 
ficará 
eternamente nosso?



                                            Lola

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Provavelmente ...


Foto João Martins



Provavelmente ...

Muito provavelmente disse...
ou melhor nunca terei dito com frontalidade que gosto muito de ti!
Mas sabes? 
Não me perturba esse esquecimento
 de uma inconsciência 
tardiamente reconhecida!



Tirado DAQUI


Noite profunda!
 dormes no cansaço 
de uma semana que teima em não passar 
chegando a um fim que tem tanto de passageiro como de desejado!
Provavelmente...esqueceste o mar que nos une
a serra que nos encontrou
a coincidência de espaços
a estrada que me mostraste
em palavras serenas e sorridentes
nos desejos 
 de projetos comuns!
Provavelmente, my dear
disse demasiadamente tarde 
que foste o melhor da minha vida...
e que...
apesar de muros levantados entre nos...
Gosto...
gosto mesmo muito de ti!

E depois?


Foto João Martins
                                              Lola


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Apetecia-me




Apetecia-me


DUAS VOGAIS
Apetecia-me um abraço brando
Uma carícia lenta

Um beijo longo.

Apetecia-me mais

Tu e eu duas vogais
Deitados num ditongo...


Apetecia-me
Dar-te simplesmente a mão
ouvir a tua voz chamar-me
tirar-te da penumbra desta distância 
que não abranda o querer
deste mar de emoções 
em que ondas se desfazem
na amplitude deste azul 
que me ofereces!

Apetecia-me mesmo
Sabes o quê?
Dizer-te num abraço 
que poderia ser  meu
(porque estarás  dormindo)
que o teu olhar me reforça
a tua meiguice me conforta
a tua voz de cetim me torna....

....inexplicavelmente LINDA!




                                             Lola



sábado, 17 de outubro de 2015

Coimbra





Coimbra eu e o Futuro

Não sei que futuro me espera em Coimbra. No entanto, ainda que passem anos, as memórias são concretas. Passeio por elas como aqueles que, neste momento, de montra em montra, atravessam a Rua Ferreira Borges. Quer sigam na direção do Largo da Portagem ou da Rua da Sofia, é quase certo que vão debaixo de claridade limpa. É sempre assim que recordo Coimbra.
Quando o meu pai estacionou o carro na universidade, eu tinha doze anos e, também então, não sabia que futuro me esperava em Coimbra. Dessa viagem, lembro o assombro perante a Biblioteca Joanina e, com a ajuda de uma fotografia que está na casa da minha mãe, lembro a pose que fizemos diante das Escadas Monumentais: os meus pais com penteados que nunca mais voltaram a ter, as minhas irmãs a serem umas raparigas, eu de calções e sandálias.
Mais tarde, havia de passar muitas vezes por essas escadas. Com vinte e poucos anos, não me cansava a subi-las. À noite, ia aos concertos na Cave das Químicas ou a outros lugares cheios de estudantes, pouco mais novos do que eu. Sem ser estudante, ninguém me pedia cartão nas muitas vezes em que decidia jantar na cantina amarela. De manhã, comprava o Diário de Coimbra e tomava o pequeno-almoço na Pastelaria Vénus, em Celas. Logo a seguir, com o autorrádio sintonizado na Rádio Universitária de Coimbra, conduzia até ao início da Estrada da Beira e, depois, ida e volta entre Coimbra e Lousã, onde era o professor mais novo da escola.
Esse foi o ano em que o meu filho mais velho nasceu. Deixei uma aula a meio e não senti o caminho até à Maternidade Daniel de Matos. Assisti ao parto. Nasceu às nove da noite de um dia de fevereiro que só poderei esquecer quando tiver esquecido tudo o que existe.
Não é difícil comparar a passagem do tempo ao Mondego. Nas suas margens, o meu filho cresceu, longas tardes de domingos no parque infantil. Mas a memória não partilha dessa serenidade. A memória é muito mais desordenada do que o tempo, muito mais selvagem. Talvez por isso, as margens do Mondego também são a farra da Queima das Fitas, o silêncio absoluto do Choupal ou a inocência do Portugal dos Pequenitos, a caminho do Convento de Santa Clara.
Por falar no Convento de Santa Clara, quando me sentava lá em cima, com os pés pendurados sobre a paisagem, assistindo à progressão da luz na torre da universidade, não sabia que futuro me esperava em Coimbra.
No ano passado, ao chegar ao Café Santa Cruz para apresentar um dos meus livros, sabia bem que, antes, não poderia sequer imaginar que algum dia teria livros escritos, menos ainda que iria falar sobre eles no sumptuoso Café Santa Cruz. Além disso, entre os rostos: o meu filho quase adulto, antigos colegas da escola da Lousã, antigos vizinhos de Celas e amigos com quem pintava paredes da cidade contra isto e contra aquilo.
O meu passado em Coimbra ainda não acabou, está todo aqui. Além disso, existe também todo um futuro que me espera. Neste momento, não sei como será. Sei que vou ao seu encontro, essa certeza é tudo o que preciso.


José Luís Peixoto,
 in revista UP (Outubro, 2015)




O futuro em Coimbra poderá passar por um beijo clandestino saltitado pelos degraus da escadaria monumental!

 E depois?

                                            Lola