sábado, 9 de janeiro de 2016

Sorte infinita



Sorte infinita

Breve partilha da minha sorte infinita

  
Como se alguma coisa me chamasse, levanto o rosto do livro. Acabado de chegar, surpreendo o mundo inteiro a existir em cada detalhe. Entre as páginas, pouso um marcador que o André fez na escola e me ofereceu no dia do pai. Cada movimento é muito vagaroso para não perturbar nada. Mantenho a distância. E fico apenas a assistir, como se ainda estivesse a ler, como se tudo continuasse sem mim.

A paz do cloro mistura-se com o fim da tarde e com o azul limpo das paredes da piscina. Calculo que os meus filhos estejam mais ou menos a vinte metros de mim. Descalços sobre a relva, jogam com raquetes de madeira. A bola de borracha faz um barulho surdo, sem eco, toc, toc. Às vezes, essa cadência mantém-se certa durante algum tempo mas, depois, sem explicação, perde-se, não dá para confiar na regularidade desse ritmo.  

O João, com dezasseis anos e mais de um metro e oitenta, atira a bola para o André, com oito anos, quase nove, que pode ser capaz de apanhá-la ou não. Em qualquer dos casos, entusiasmam-se com esse desafio, riem-se e as suas vozes atravessam esta distância, perdendo pelo caminho a forma das palavras, mas mantendo o seu tom, a sua idade, a sua música.

Numa cadeira ao lado da minha, inclinada para trás, a minha mãe ressona baixinho, como se o ar lhe raspasse no céu da boca. Tem os óculos desacertados dos olhos e a expressão séria que sempre faz quando está a dormir. Tem as mãos juntas, pousadas sobre a barriga, os dedos tortos, a artrose. Tem as pernas esticadas, os dedos gordos dos pés a apontarem para qualquer lado, a dormirem também.

Neste momento, tenho a noção precisa do tamanho da minha sorte.

No ano passado, fomos de férias juntos pela primeira vez, só nós. Em novembro, quando a minha mãe teve o AVC, pensei em várias ocasiões: ainda bem que fizemos essa viagem, ainda bem que não esperámos mais. Quando recuperou a fala, ela própria disse a mesma coisa. Estes meses passaram com a minha mãe a reaprender a andar, a segurar nos objectos, a falar. Não sei se os meus filhos chegaram a entender completamente aquilo que aconteceu à avó. Eles ainda não são capazes de perceber que ela é uma rapariga nova no corpo de uma mulher de setenta e um anos, a ouvir mal, a andar devagar, a usar palavras estranhas, a contar histórias antigas e a não gostar de todas as comidas.

Mesmo sem essa tangente à morte, mesmo sem a violência dos detalhes que não descrevo aqui, acredito que continuaria a ser capaz de avaliar a dimensão da sorte deste momento. Desde cedo que temo a possibilidade de passar pelas horas mais felizes da minha vida sem as reconhecer. Não sei com quem aprendi esse talento. Sinto pena silenciosa quando vejo alguém recordar um tempo em que foi feliz como se, só naquele instante, demasiado tarde, identificasse a felicidade que atravessou. Não quero esse desperdício para mim. A vontade de reconhecer os melhores momentos da minha vida no instante em que estou a vivê-los, dá-me a lucidez de estar sempre alerta para a felicidade. É essa a minha sorte.

Os meus filhos jogam com as raquetes de madeira. Quando um ou outro não acerta na bola, dão dois ou três passos para ir buscá-la entre os arbustos. A minha mãe continua a dormir, os seus sonhos parecem tranquilos como as suas sobrancelhas. O tempo desliza nestas cores do entardecer. O sol, de certeza, encontrou o horizonte. Somos sempre os últimos a sair, não temos pressa.

Depois, quando sairmos, voltaremos a ser um grupo invulgar de quatro elementos com muitas diferenças entre si: um menino de oito anos, irrequieto, cheio de coisas para dizer; um adolescente de dezasseis anos, carapinha, aparelho nos dentes e muito vagar; uma mulher de setenta e um anos, a descer degraus com dificuldade, mas animada para todas as hipóteses que surjam; e eu, de chinelos, t-shirts difíceis de compreender, estranho e tatuado.

Mas isso será depois. Agora, há o rumor da água da piscina, empurrada por uma brisa que não se sente, há a minha mãe aqui ao lado, há os meus filhos a serem irmãos e há esta sorte infinita que me rodeia e me acompanha.

Há esta gratidão compacta que me preenche. 




José Luís Peixoto,
 in revista Visão (julho de 2013)




Lola

Chuva...



Chuva ...

Rita sempre gostara de passear chuva dentro com o seu porte elegante sem esquecer o guarda chuva vermelho que é para ela uma cor única e inigualável!
Rita sente, frequentemente, saudade do MAR, do cheiro a maresia, da musica ritmada das ondas que se desfazem a seus pés!Gosta de passear junto ao mar, olhando o infinito e sem temer a presença de uma ou outra gaivota que por ali passe pois esse é o seu habitat e Rita até nem desgosta de as ver voar, desenhando movimentos curvilíneos que se perdem na distância!
Inverno! 
O mar é menos brilhante, está mais enfurecido, mas o mistério que ele guarda é exactamente igual ao de qualquer outro dia mais dourado pelo sol! Claro, que passear na areia molhada lhe faz cansar as pernas mas o desejo premente de se encontrar junto a ele...o mar... combina a dureza dos passos com a magia daquela musica de água salgada de que Rita é uma fervorosa amante!
Cedo Rita conjugou o mar e a reflexão existencial! Sempre a cativou ficar frente a frente tentando descobrir e descobrir-se a si própria em momentos que carecia de encontrar sentidos para a vida!
 Por isso este continuará a ser, para ela, um caminho que percorre sozinha ...ou talvez não...
...com o sonho de que um dia tu possas partilhar o guarda chuva vermelho enrolando-a num olhar de futuro que, neste momento, é-lhe tão estranho quanto a misteriosa mas sedutora envolvência de si própria com a tranquilidade do horizonte timidamente infinito!


Dàs-me um abraço de Mar, 
my dear?


                                              Lola

Sapatos




Sapatos

Rita sempre gostara de passear rua fora com o seu porte elegante e nunca descurando um pormenor, por mínimo que fosse,  na forma como se apresentava num espaço que não o  de sua casa!
Não era muito antiga esta sua vontade de olhar para si própria! Descobrira-a após sentir que não lhe tinham reconhecido o seu valor...a sua lealdade...o seu cuidado para com os seus...esquecendo-se, e não foram poucas as vezes, de si e da sua beleza graciosa e interessante!
Por vezes achava curioso porque lhe diziam os miúdos que ela era vaidosa! Rita sorria pois não estava nada de acordo!
Nunca sentira o desejo de agradar a quem quer que fosse...senão a si própria e à terrível  tarefa mental que lhe era suscitada pela necessidade intrínseca da combinação de cores, acessórios, bâton e... não poderia esquecer nunca um pouco de tempo a escolher os ... sapatos!
Ai, como os sapatos eram a grande debilidade de Rita! Desde a sua meninez que se perdia em montras de uma qualquer sapataria da cidade a saborear os modelos que mais a fascinavam e que naquele momento nunca poderia ter!
Namorava-os tanto que sonhava um dia ter uns sapatos, um par que fosse de tacão para notar que elegância lhe proporcionavam!
E eram os coloridos que mais a atraiam...condiziam com o seu espírito inquieto, insubmisso, desalinhado e da garra que sempre a acompanhava mesmo nos silêncios que teimava dar como resposta a assuntos que nada lhe interessavam!
Rita sonhava muito! Sempre fora habituada a não ter o que queria...os tempos eram de escassez... mas o enamoramento e o desejo no tempo que havia de converter-se em ter o que desejava, mesmo o mais simples, trouxe-lhe uma ânsia pela busca e menos pelo encontro!
O sonho fora aquilo que Rita tinha de muito seu, sem interferências, nem descuidos, sem rejeições! Um dia o tempo ajuda-la-ia a chegar ao que, durante muitos anos a separou de uma vidraça!
 Rita, porém, continua a sonhar! 
Não propriamente com sapatos...embora continue a passar para là das montras quando um exemplar inova o seu olhar e lhe agrada radicalmente!
Hoje Rita é uma enamorada da vida, do saber estar com quem a gosta e de quem gosta...por isso...
...de vez em quando namora, de novo, uns sapatos vermelhos de enormes laçarotes com os quais passeava na tua mão e se esticava para te enlaçar num abraço de transparência colorida!
Atè porque  o enamoramento lhe agrada, o desejo a mantém esperançada num reencontro...
...agora, certamente, para cá da vidraça onde encontra, continuadamente o moreno atlântico dos teus olhos indiziveis!


                                            Lola

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Ouvi dizer





Ouvi dizer


Ouvi dizer
Que o nosso amor acabou
Pois eu não tive a noção do seu fim.
Pelo que eu ja tentei
Eu não vou vê-lo em mim
Se eu não tive a noção de ver nascer o homem.

E ao que eu vejo
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi
E eu fiquei com tanto para dar
E agora não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva

E pudesse eu pagar de outra forma
E pudesse eu pagar de outra forma
E pudesse eu pagar de outra forma

Ouvi dizer
Que o mundo acaba amanhã
E eu tinha tantos planos p'ra depois
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós
Sem tirar das palavras seu cruel sentido.

Sobre a razão estar cega
Resta-me apenas uma razão
Um dia vais ser tu
E um homem como tu
Como eu não fui
Um dia vou-te ouvir dizer

E pudesse eu pagar de outra forma
E pudesse eu pagar de outra forma
E pudesse eu pagar de outra forma

Sei que um dia vais dizer
E pudesse eu pagar de outra forma
E pudesse eu pagar de outra forma
E pudesse eu pagar de outra forma

A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros,
Nas pontes, nas ruas...
Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura
Ora amarga, ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura


Ornatos Violeta 


Foto Gustavo Machado @All rights reserved

Tirado DAQUI

                                              Lola

Afastada do Mar





Afastada do Mar


Anos e anos do que não foi eu
Vivi recluso no ser que era o meu.
Anos e anos de quem nunca fui
Vivi submisso do meu ser que flui.

Agora que a viagem é regresso
Ao que deveras sou, deveras peço
Que eu tenha num momento de viagem
Remorsos de mim mesmo ou da paisagem.

Porque, por muito que se a alma tenha
Afastado do mar que as praias banha 
Da sua solidão universal,
Volta, de noite, sem que o luar venha,
Ali, num passo antigo e natural.



Fernando Pessoa,





Um dia  uma amiga enviou-me, muito

 generosamente, um pedaço de Mar!


Eu que dele vivi afastada, tantos anos, pela vidraça 

opaca da mediocridade opressiva e egoísta de 

algumas pedras que se atravessaram na espuma da

 existência!

Obrigado pela meiguice das ondinhas 

 de um azul transparente

 que nos eleva ao céu!





                                              Lola

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Poeta e Amante



Poeta e Amante

Cartas de amor escritas por alguns dos mais famosos autores do mundo.





Meu Bebé, meu Bebezinho querido:


Sem saber quando te entregarei esta carta, estou escrevendo em casa, hoje, domingo, depois de acabar de arrumar as coisas para a mudança de amanhã de manhã. Estou outra vez mal da garganta; está um dia de chuva; estou longe de ti — e é isto tudo o que tenho para me entreter hoje, com a perspectiva da maçada da mudança amanhã, com chuva talvez e comigo doente, para uma casa onde não está absolutamente ninguém. Naturalmente (a não ser que esteja já inteiramente bom e arranje as coisas de qualquer modo, o que faço é ir pedir guarida cá na Baixa ao Marianno Sant’Anna, que, além de ma dar de bom grado, me trata da garganta com competência, como fez no dia 19 deste mês quando eu tive a outra angina.

Não imaginas as saudades de ti que sinto nestas ocasiões de doença, de abatimento e de tristeza. O outro dia, quando falei contigo a propósito de eu estar doente, pareceu-me (e creio que com razão) que o assunto te aborrecia, que pouco te importavas com isso. Eu compreendo bem que, estando tu de saúde, pouco te rales com o que os outros sofrem, mesmo quando esses «outros» são, por exemplo, eu, a quem tu dizes amar. Compreendo que uma pessoa doente é maçadora, e que é difícil ter carinhos para ela. Mas eu pedia-te apenas que «fingisses» esses carinhos, que «simulasses» algum interesse por mim. Isso, ao menos, não me magoaria tanto como a mistura do teu interesse por mim e da tua indiferença pelo meu bem-estar.

Amanhã e depois, com as duas mudanças e a minha doença, não sei quando te verei. Conto ver-te à hora indicada amanhã — às 8 da noite ou de aí em diante. Quero ver, porém, se consigo ver-te ao meio-dia (embora isso me pareça difícil), pois às 8 horas quem está como eu deve estar deitado.

Adeus, amorzinho, faz o possível por gostares de mim a valer, por sentires os meus sofrimentos, por desejares o meu bem-estar; faz, ao menos, por o fingires bem.

Muitos, muitos beijos, do teu, sempre teu, mas muito abandonado e desolado.


Fernando Pessoa, em Carta a Ofélia Queiroz 
(28 Mar 1920).


                                            Lola

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Bom Ano, my dear





Bom Ano

Há bem poucos minutos fechamos um ano 
e iniciamos um outro que costuma designar-se de novo porque ainda não foi vivido!
O meu sentir vai, por isso mesmo,
 para o teu ser num tempo que por ser novo poderás, por certo, querer viver de modo mais ternamente doce!
Para ti, my dear
desejo momentos de muita tranquilidade como mereces,
tempos de serenidade existencial como sempre exiges a ti próprio e...
sobretudo
pedaços, ainda que avulso, de desejo de revisitar um "Olà" de saudade que vai permanecendo para além de ti 
e daquilo tudo que hoje te rodeia!
Daqui, desde lado da solidão
ofereço a certeza de te embalar nos meus sonhos
de te sorrir nas minhas palavras alegres
de te lembrar sempre 
que, là ao longe,  ouço uma voz que de tão parecida
 me faz redobrar o desejo de te oferecer, 
neste novo ano
um abraço de areia dourada!




...E claro,
 um enorme beijo de "coeur às pintinhas"!
Porquê?

Porque tu existes em mim e eu quero permanecer contigo no meu EU!



                                             Lola