segunda-feira, 6 de março de 2017

Quero-te



Quero-te 


Porque te encontrei numa tarde solitáriamente angustiante
Porque te admirei a humildade
Porque me seduziste pela serenidade
Porque senti o teu carácter determinado
Porque sonhei projectos em comum
Porque te procurava com os olhos cada manha
Porque me agradava o teu rir melodioso
Porque te envolvia um mistério aprazível
Porque resguardavas muito do teu eu
Porque tranquilizavas as minhas ansiedades
Porque aprendeste a conhecer os meus sentires
Porque eras de uma amabilidade inexcedível
Porque estavas comigo em momentos dolorosos
Porque gostas do Mar e ele nos une ao longo da costa
Porque me inspiras e te respiro
Porque te desejo em instantes de permanência sem ausência
Porque acredito que vais voltar
Porque aceito as palavras que me dàs
Porque gosto de partilhar melodias contigo
Porque vivemos momentos de alegre cumplicidade
Porque sei que não me esqueceste
Porque um dia me disseste...SUBLIME!

Quero-te....simplesmente...

porque ...
te pinto no aconchego do meu pensamento, nos momentos dos meus sonhos e no meu presente sempre feito amanha com que te despedes!

porque ...
 tu és único nesse olhar de profunda atenção que me preenche sempre de forma silenciosa, agradável, ternurenta e deliciosa com uma doçura de sabor a maresia !

Quero-te, my Dear!





                                             Lola

Vestido xadrez



Vestido xadrez

Rita sempre adorara a moda coquette dos anos 50!

Nos tempos de meninice a mãe sempre a adornara  com vestidos floridos, com laçarotes que tornavam engraçada a sua figura de boneca!

Esta marca de infância, Rita nunca a esquecera porque lhe continuavam a seduzir os tecidos de risquinhas, de pintinhas, de bolinhas, florinhas, as nervuras, as rendas e o xadrez!

Demorava-se em montras de tecidos que ordenada e criativamente  formavam um colorido suave...ou mais arrojado, mas o que ela nunca perdia de vista era a cor vermelha que sempre a acompanhou na alma e no corpo desde que se conhecia como existente!

Por isso cada manhã que chegava à empresa, Pedro olhava-a com um sorriso porque lhe apreciava esta harmonia de cores envolvida por um sorriso que brilhava e iluminava qualquer resquício de cansaço que pudesse, arbitriamente, imiscuir-se na vida de Pedro!

Rita tinha cada vez mais a certeza de que vestia para si própria e não tanto para que a pudessem lisonjear, mas nunca esquecera que era bom, mesmo muito bom sentir o agrado no olhar moreno que, nos últimos tempos, enchia de alegria o seu coração pequenino mas de uma generosidade enorme!

Por isso, cada manha preparava-se meticulosamente com as cores que lhe agradavam e sonhava que mais uma vez as poderia embrulhar em sorrisos cúmplices e palavras como aquelas que, um dia, Pedro de forma agradavelmente inesperada lhe sussurrara ao ouvido numa solidão íntima mas colorida, no meio de tanta gente:

 "Estàs tão linda..."





Mas o que Rita queria agora mesmo, 
neste momento efémero 

era...

...um abraço em xadrez !

 Podias envolver-me nele
pois eu há muito que o espero,
ansiosamente, 
nesta mistura geométrica de cores!

                                           Lola

Não digas nada!






Não digas nada!


Não digas nada!

Nem mesmo a verdade

Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã

Em outra paisagem

Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.


Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”


Será que Pedro imaginava que Rita gostava dele, 

que sentia o vazio da ausência e que sempre 

esperava as suas palavras envoltas numa 

serenidade que a tranquilizava?


Será que Pedro saberia as linhas de aproximação

 do rosto de Rita ao seu?


                                              Lola

quarta-feira, 1 de março de 2017

Amar e Adorar


Amar e Adorar

Saint-Exupéry oferece-nos uma magnífica passagem na obra ‘O Pequeno Príncipe’ com que podemos  ilustrar a diferença entre amar e adorar!
Eu te amo —disse o Pequeno Príncipe.
Eu também te adoro —respondeu a rosa.
Mas não é a mesma coisa —respondeu ele, e logo continuou
 Adorar é tomar posse de algo, de alguém. É buscar nos outros o que preenche as expectativas pessoais de afeto, de companhia. Adorar é fazer nosso aquilo que não nos pertence, é se apropriar ou desejar algo para nos completar, porque em algum momento reconhecemos que estamos carentes.

Adorar é esperar, é se apegar às coisas e às pessoas a partir das nossas necessidades. Então, quando não temos reciprocidade, existe sofrimento. Quando o “bem” adorado não nos corresponde, nos sentimos frustrados e decepcionados.
Se eu adoro alguém, eu tenho expectativas e espero algo. Se a outra pessoa não me dá o que eu espero, eu sofro. O problema é que há uma maior probabilidade de que a outra pessoa tenha outras motivações, pois somos todos muito diferentes. Cada ser humano é um universo.

Amar é desejar o melhor para o outro, mesmo quando as duas pessoas têm motivações bem diferentes. Amar é permitir que você seja feliz, quando o seu caminho é diferente do meu. É um sentimento altruísta que nasce ao se entregar, é se dar por completo a partir do coração. Por isso, o amor nunca será causa de sofrimento.

Quando uma pessoa diz que já sofreu por amor, na verdade ela sofreu por adorar, não por amar. As pessoas sofrem pelo apego. Se alguém ama realmente, não pode sofrer, pois não espera nada do outro. Quando amamos, nos entregamos sem pedir nada em troca, pelo simples e puro prazer de dar. Mas também é certo que essa entrega, este “se entregar” altruísta, só acontece no conhecimento.
Só podemos amar o que conhecemos, porque amar envolve saltar para o vazio, confiar a vida e a alma. E a alma não se indeniza. E conhecer a si mesmo é justamente saber de si, das suas alegrias, da sua paz, mas também das suas raivas, das suas lutas, dos seus erros. Porque o amor transcende a raiva, o erro, e não é só para momentos de alegria.
Amar é a confiança plena de que aconteça o que acontecer, você vai estar presente, não porque você me deva alguma coisa, não por uma posse egoísta, e sim só por estar, em uma companhia silenciosa. Amar é saber que o tempo, as tempestades e os meus invernos não mudam.
Amar é dar-lhe um lugar no meu coração para que você fique como parceiro, pai, mãe, irmão, filho, amigo, e saber que no seu há um lugar para mim. Dar amor não esgota o amor, pelo contrário, o aumenta. A maneira de retribuir tanto amor é abrir o coração e deixar-se ser amado.

—Agora entendo —contestou ela depois de uma longa pausa.
—É melhor viver isso —aconselhou-lhe o Pequeno Príncipe.

Outra bela explicação relacionada com a diferença da qual falamos é aquela que os ensinamentos budistas nos oferecem. Neles, afirma-se sabiamente que se você adora uma flor, a arranca para tê-la consigo, mas se “ama” uma flor, você a rega todos os dias e cuida dela.
Definitivamente quando amamos alguém o aceitamos tal como ele é, permanecemos ao seu lado e procuramos deixar depósitos de felicidade e êxtase em todos os momentos. Porque os sentimentos, para serem puros e intensos, têm que vir de dentro.
Por isso é essencial fazer um exercício interior e questionar se estamos fazendo tudo certo, se estamos demonstrando bem os nossos apegos e os nossos sentimentos, ou se, pelo contrário, os estamos a confundir com o desejo de colocar as nossas relações em palavras duradouras e profundas.



                                               Lola

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Eclipse




Eclipse


Diz uma lenda chinesa


De dois amantes

Que não chegam nunca a se juntar.

Chamam-se dia e noite.

Nas mágicas horas

Do pôr do sol e do nascer do sol os amantes

Se tocarem e estão prestes a encontrar-se,

Mas isso nunca acontece.

Dizem que, se prestarem atenção,

Você pode ouvir os gemidos

E ver o céu tingir-se de vermelho

Da raiva deles.


A lenda diz

Que os deuses

Quiseram lhes conceder

Alguns momentos de felicidade;

Por isso criaram um eclipse.


 David Trueba



Por isso, my dear...

é que apenas te vou encontrando

 nos sonhos

 que delicada e enternecidamente 

vao preenchendo noites 

de uma doçura inexplicável!


Para quando o nosso eclipse?



                                              Lola

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Te amo





Te amo


Amo-te amo-te de forma inexplicável, de uma forma inconfessável de forma traditório, amo-te com os meus estados de ânimo que são muitos e mudam de humor constantemente por aquilo que você já sabe, o tempo, a vida, a Morte amo-te com o mundo que eu não entendo com as pessoas as pessoas que não entende, com a ambivalência da minha alma, com a incoerência dos meus atos, com a fatalidade do destino, com a conspiração do desejo, com a ambiguidade dos fatos.
 Mesmo quando eu disser que não te amo, te amo, mesmo quando te traio, não te traio lá no fundo, tenho um plano.

Para amar-te mais. 

Eu te amo... sem pensar, sublime, irresponsavelmente, espontaneamente, involuntariamente, por instinto, por impulso, irracionalmente. De fato não tenho argumentos lógicos, nem sequer improvisados. Para fundamentar este amor que sinto por ti, que surgiu misteriosamente do nada, que não resolveu magicamente nada. E que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco y nada melhorou o pior de mim. Eu te amo, te amo com um corpo que não pensa. 
Com um coração que não raciocina. Com uma cabeça que não coordena. Te amo incompreensivelmente. Sem perguntar-me porque te amo. Sem importar-me porque te amo, sem levantar dúvidas sobre o porque eu te amo. 

Te amo simplesmente porque te amo, eu mesmo não sei porque te amo.


Pablo Neruda




Lola

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Van Gogh

Foto by André Teixeira

Van Gogh

Uma campanha para preservar a última morada dos irmãos Van Gogh

O município de Auvers-Sur-Oise e o Instituto Van Gogh querem angariar 1,2 milhões de euros para restaurar as lápides de Vincent e Theo Van Gogh e a igreja contígua, que acusam a passagem do tempo e a grande afluência ao cemitério.

“O sol estava terrivelmente quente. Chegámos ao cemitério, um novo e pequeno cemitério palmilhado por lápides novas. Ficava na pequena colina para lá dos campos maduros para a colheita sob o vasto céu azul que ele ainda teria amado… talvez”, escreveu o pintor Émile Bernard numa carta ao crítico de arte Albert Aurier, datada de 2 de Agosto de 1890, onde relata o funeral de Vincent Van Gogh. O pintor, que se terá suicidado com um tiro no peito a 27 de Julho desse ano, não resistindo à infecção causada pela bala e morrendo dois dias depois, passou os últimos 70 dias da sua curta vida em Auvers-sur-Oise, uma vila a cerca de 30 quilómetros de Paris.

Aquela que foi a sua última morada necessita agora de uma intervenção urgente devido à degradação desencadeada pelas chuvas intensas de Outubro de 2015. O município de Auvers-sur-Oise e o Instituto Van Gogh, responsável pela conservação dos lugares que inspiraram o artista, estão a trabalhar para angariar 1,2 milhões de euros com o objectivo de restaurar o cemitério onde estão sepultados Vincent Van Gogh e o irmão, Theo, e a igreja de Notre Dame de L’Assomption, a ele adjacente.





As inundações são frequentes no cemitério e a igreja do século XIII, retratada por Van Gogh em A Igreja em Auvers-sur-Oise  obra que se encontra no Museu d’Orsay, em Paris –, está em risco de ruir, uma vez que o telhado foi danificado pela tempestade e deixa vazar a água. Também a excessiva afluência tem deixado mossa no solo onde jazem os restos mortais do pintor: o cemitério foi construído para receber entre cinco e dez mil pessoas por ano e é visitado por uma média de 250 mil. “É o cemitério mais visitado de França, a seguir ao Père Lachaise [em Paris]”, aponta Dominique Charles Janssens, citado pelo The Art Newspaper. O presidente do Instituto Van Gogh assinala que, apesar da deterioração das condições, “as pessoas continuam a vir e a pôr os pés na água”.
No ano passado, o estado francês e a administração local comprometeram-se a financiar 60% dos 600 mil euros necessários para reparar o telhado da igreja. O município vai contribuir com 20% do total, mas lançou uma campanha de crowdfunding em Junho de 2016 para assegurar os restantes 120 mil euros. Sete meses depois, foram angariados 57 mil euros, um valor que ainda continua distante da meta final, apesar das doações dos descendentes da família, de alguns museus e dos cidadãos. A primeira fase dos trabalhos terá início em Maio ou Junho na ala Norte da igreja, onde os estragos foram maiores, de acordo com o jornal francês Le Parisien.



Muitos dos visitantes que passam no cemitério de Auvers-sur-Oise para prestar homenagem a Van Gogh deixam girassóis ou espigas de trigo dos campos circundantes na sua lápide, em alusão às paisagens que pintou. Por ocasião do aniversário da sua morte, em Julho do ano passado, o Le Figaro reportou que o Instituto Van Gogh estava a pedir que, em vez de flores, o público oferecesse doações para ajudar a preservar aquele sítio.
Além de contribuições para o restauro total da igreja, são necessários 600 mil euros para instalar um sistema de drenagem adequado no cemitério, assim como novos sistemas de iluminação e de segurança. A organização pretende, ainda, reabilitar os terrenos à volta da igreja – que serve actualmente de parque de estacionamento – para corresponder à descrição que o pintor fazia do lugar numa carta à irmã Willemina, retratando-o como “um delicado espaço verde e florido”. Deverão ser, ainda, construídas casas de banho, uma cobertura que sirva de abrigo aos visitantes e uma entrada com cadeado. Actualmente, a campanha contabiliza 100 mil euros, mas segundo Dominique Janssens o objectivo é chegar aos 600 mil até ao final de Julho.





Inseparáveis na vida e na morte
A vida de Vincent Van Gogh foi uma incessante batalha contra a doença mental, que lhe causava alucinações, falhas de memória e oscilações de humor. O seu estado de saúde piorou a partir do momento em que cortou a orelha esquerda com uma lâmina, em Dezembro de 1888. Após o tratamento de que se encarregou o médico Félix Rey ainda em Arles e o internamento numa instituição psiquiátrica em Saint-Remy-de-Provence, Van Gogh chegou a Auvers-en-Oise em Maio de 1890, para estar mais perto do irmão, Theo, e para consultar o Paul Gauchet, médico que lhe havia sido recomendado por Pissarro.
O curto período que passou naquela vila francesa foi o mais produtivo da sua carreira; dele resultaram 75 pinturas e mais de cem desenhos e rascunhos. Mas Van Gogh continuava acometido pelos ataques de perda de consciência que viriam a ditar o seu suicídio nesse Verão. O funeral decorreu um dia após a sua morte e contou com a presença não só de familiares e locais como de membros da comunidade artística parisiense, incluindo os pintores Lucien Pissarro, Charles Laval e Émile Bernard e o negociante de arte Julien Tanguy.
“Ele morreu na noite de segunda-feira, ainda a fumar o seu cachimbo que se recusava a deixar, e explicou que o seu suicídio tinha sido completamente deliberado”, conta Émile Bernard na carta a Albert Aurier. O artista descreve ao amigo que a divisão onde o corpo do pintor estava a ser velado se encontrava decorada com as suas últimas telas e que a urna estava coberta com um pano branco e girassóis e dálias amarelas. “Era, como te deves lembrar, a sua cor favorita, o símbolo da luz que ele sonhava ver no coração das pessoas e também nas suas obras de arte."
O pintor relata, ainda, o pesar que tomou conta da cerimónia fúnebre. Gachet, que havia tido esperança de salvar o seu paciente, emocionou-se de tal forma que só conseguiu balbuciar uma despedida rápida. “Segundo Gachet, ele era um homem honesto e um grande artista, que só tinha dois objectivos, a humanidade e a arte.” Theo, seu irmão e companheiro de todas as horas, “esteve a chorar desalmadamente o tempo todo”, e acreditou até ao fim que Vincent resistiria. “Levou alguns momentos até que partisse e, então, encontrou a paz que não tinha encontrado na Terra”, notou numa carta à mulher, Jo.

Theodore Van Gogh viria a morrer seis meses depois, aos 33 anos, alegadamente de sífilis. Inicialmente, foi enterrado em Utrecht, na Holanda, a cerca de 80 quilómetros de Zundert, onde os dois irmãos nasceram. Aí permaneceu até 1914, data em que a família exumou o seu corpo para que pudesse ficar junto do pintor no cemitério francês.



No final dos anos 1800, Auvers-sur-Oise era uma comunidade de artistas. Vários pintores ali chegavam à procura dos conselhos e da orientação de mestres como Paul Cézanne, que trabalhara na vila durante dois anos, e Charles-François Daubigny, precursor do movimento impressionista que ali viveu. Ainda hoje aquela localidade é um capítulo imprescindível para a compreensão da vida e da obra de um dos grandes nomes da história da arte. Há 29 placas espalhadas pelas ruas com imagens dos quadros que Van Gogh pintou e dos edifícios ou paisagens que o inspiraram.



Durante o tempo que passou em Auvers-sur-Oise, Van Gogh esteve hospedado no Auberge Ravoux, onde pagava 3,5 francos por noite e partilhava quarto com o pintor holandês Anton Hirschig. A divisão, assim como os restantes aposentos da pousada, pode ser visitada pelo público; o bilhete inclui um documentário sobre a relação de Van Gogh com a vila, com o irmão Theo e com o parceiro artístico Paul Gauguin. A vila orgulha-se ainda de albergar o ateliê de Daubigny, a casa do Dr. Gachet (cuja visita é gratuita) e o seu castelo. No fundo, Auvers-sur-Oise é um postal vivo que ilustra a memória das plantações de trigo e do vibrante céu azul que se eternizaram no repertório de Van Gogh.
in Publico

 MARIA JOÃO MONTEIRO 
5 de Fevereiro de 2017, 7:00

«É como se não deixássemos morrer os girassóis»

(Júlio Machado Vaz)


                                                Lola