terça-feira, 2 de maio de 2017

Desejo, vontade e culpa


Desejo, vontade e culpa
Trair é um verbo que se conjuga desde sempre. Envolve três sujeitos: traidor, traído e amante. 
E qualquer um de nós pode ser qualquer um deles

A vida cabia toda numa mesa. Numa pequena mesa de cozinha. Em cima dela, os brinquedos da filha mais nova, o computador e o telemóvel, sempre com o ecrã virado para baixo. Cada objeto é o símbolo das três vidas de João: a familiar, a profissional e a secreta. Aquela que nunca julgou ter. A que o fazia revelar um eu diferente. A que lhe provocava um conjunto de sensações avassaladoras. Desejo. Vontade. Culpa. Todas as vezes que o telemóvel vibrava, os três sentimentos atingiam-no de rompante. Era a hipótese de consumar um desejo carnal que lhe fazia o coração disparar. As mãos suavam. Rejuvenescia com aquele segredo vivido a dois. João tinha muita vontade. Cada vez mais vontade. O desejo alimentava o secretismo que, por sua vez, alimentava o desejo. Um ciclo vicioso.
O frisson da hipótese de um beijo prevaleceu sobre o medo de colocar em risco todas as certezas da vida. “Só pensava que podia ser bom e que se não experimentasse ia ser das coisas de que me arrependeria no leito da morte. Era estranho porque tinha tudo para ser um homem feliz”, recorda com alguns remorsos. Passaram sete anos desde o dia em que com uma mensagem no Facebook iniciou uma relação extraconjugal. Ainda se atrapalha a explicar o porquê daquela traição que durou quatro anos.
“Acho que a questão não é porque traímos. É antes porque colocamos a bitola de uma boa relação na ausência total e absoluta de interesse por outra pessoa. É isso que dizemos muitas vezes, se estamos atraídos por alguém é porque as nossas relações não estão a funcionar. No entanto, se olharmos para os estudos e se virmos que entre 30% a 60% dos casais traem ou são traídos, vemos que estamos a pôr uma expectativa ilusória nas nossas relações”, afirma Luana Cunha Ferreira, psicóloga, terapeuta familiar e professora na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.
Mas como se define infidelidade? É uma noite de sexo ocasional sob o efeito do álcool? Um encontro com uma prostituta? Uma troca de mensagens picantes com alguém que se conheceu online? Uma relação física com um colega de trabalho que se mantém durante uns meses? Uma paixão platónica?
Primeiro — enquanto João e a amante se limitavam a trocar mensagens —, era como se não fosse uma coisa real. Não era a traição que a literatura e o cinema diabolizaram. “Era só um flirt. A possibilidade de algo acontecer era o mais excitante. Para mim, não era ainda uma traição.” Isso só aconteceu no dia em que consumou os desejos, em menos de meia hora de sexo, dentro do carro dele, num parque de estacionamento vazio. Nem a hormona da vasopressina, que se associa à lealdade e surge na fase da pós-paixão, o segurou.

“Cada casal é um planeta. Há pessoas que consideram traição só quando se envolvem com outra pessoa; outras consideram traição só o ver pornografia, individualmente, e aqui não há nada de físico e também não há nada emocional. Mesmo assim há muitos casais que dizem que isto é traição porque ela ou ele foram buscar prazer a outra fonte. Já para outros casais isto é ridículo porque só conta quando se envolvem emocional ou fisicamente com outro. Há pessoas para quem o flirt não é traição, desde que a conversa mantenha um certo nível”, sublinha Luana Cunha Ferreira.
Cada casal é um planeta e, por isso, cada casal define as fronteiras da sua fidelidade. E define se a traição — ou a traição que conta para colocar em risco a relação — é física (consumada com sexo); emocional (em que há uma ligação afetiva com a terceira pessoa); física e emocional; digital (feita à distância através das redes sociais); ou se até o pensar em outra pessoa conta. Cada indivíduo pode definir até que ponto deixa a alquimia do desejo mexer consigo.
João pensava, a princípio, que ia mexer pouco consigo. Sentia-se como se estivesse a fazer um intervalo na vida, a voltar aos tempos sem preocupações. Ia descobrindo coisas novas em si, talvez algumas já ele tivesse vivido. Não tinha ainda percebido que a raiz dos primeiros olhares cúmplices que trocou com a amante há muito fora plantada e alimentada. O divórcio nunca foi coisa que lhe passasse pela cabeça. Era com a mulher que tinha filhos, dividia as contas. Era ela a melhor amiga, a primeira pessoa com quem desabafava dos problemas. Ela era a cola que o unia ao seu mundo. “A fidelidade é um contrato social. Entre outras cláusulas está estabelecido que o sexo seja só entre aquelas duas pessoas. Só que a nossa natureza não é monogâmica. Somos educados para isso como somos educados para a heterossexualidade”, defende a sexóloga Vânia Beliz.
Atualmente, somos mais monogâmicos em cada relação que temos, do que monogâmicos toda a vida. É o fruto da evolução da sociedade. “A ideia de exclusividade que vigorou até ao século XX está a ser posta em causa. Mas noutras culturas não existia como existiu na nossa”, frisa Pedro Frazão, psicólogo e terapeuta familiar.
No fundo, João confessa que a ideia de só dormir com uma pessoa até ao resto da vida pertencia a um universo mais distante. Sabe bem que o affair abalou o casamento. Mas as maiores reflexões só vieram no fim. Na altura em que se voltou a sentar em frente à mesa da cozinha e a colocar lá em cima todas as vidas. Viu e reviu as mensagens. Voltou a muitos momentos que tiveram a dois. Disse, para si próprio, que aquilo significava nada. Por nenhum desejo deste mundo, valeria a pena perder o valor emocional de uma relação de 15 anos. Apagou o número da amante e nunca mais falou com ela. Ficaram para trás quatro anos de uma relação que nasceu com uma mensagem de Facebook: “Ficas a matar com essa roupa.” Frase feita de engate que ela gostou de ouvir. Nunca tinham tido uma conversa a dois, mas trabalhavam juntos há um par de anos. Ela sabia como era a vida dele, mas respondeu. Um smile. E ele quis saber o significado do smile. A sete secretárias de distância, a conversa disparou rápido para a parte sexual. “Nunca me vou esquecer, da alegria, da juventude que foi dar o primeiro passo”, recorda. Naqueles segundos em que escreveu e carregou no botão enviar não ficou preocupado que a mensagem pudesse ser considerada assédio. E também não lhe passou pela cabeça que ela não gostasse.
Do Facebook passaram para o e-mail do pessoal. Uns meses a revelarem fantasias. Ela a sentir-se desejada. Ele a sentir-se mais novo. A andar atrás no tempo, aos dias em que não tinha preocupações. Naquelas conversas não era o homem que dormia poucas horas por causa da filha bebé, nem era o homem que atravessava Lisboa a correr para ir buscar o filho mais velho à creche. Nem estava preocupado com a concorrência no trabalho. Nem com os prazos. E João gostava dessa pessoa. Os problemas só vinham quando se via ao espelho. Quem estava refletido no vidro: o pai de família ou aquela pessoa que fantasiava em chegar ao pé da amante, no meio de toda a gente, tirar-lhe as cuecas e fazer sexo ali. Desculpou-se sempre da mesma forma: havia qualquer coisa que faltava no casamento.
A ORIGEM DA CULPA

A culpa não morre solteira e problema está sempre no outro. “Muitas vezes, quase sempre, é sinónimo de que algo não está bem. Agora, não tem de ser na relação. Pode ser algo na própria pessoa. Dificilmente é algo com o meu parceiro, as pessoas põem muito a culpa no parceiro mas é mais uma coisa connosco, uma pesquisa por nós. Nós queremos muito libertarmos nos daquilo que queremos ser naquela relação. Mais do que a relação propriamente dita. Nós não queremos é ser a pessoa que somos naquela relação. E cai alguém na sopa e experienciamo-nos como éramos antes desta relação”, explica Luana Cunha Ferreira. Faz parte do ser humano colocar o ónus na outra pessoa. É o amante que é extraordinário e, por isso, se cai por ele. É o parceiro que é um idiota e, por isso, é que nos afastamos dele. É relação que já está rotineira, já morreu e para isso é que se procura uma alternativa. E, no entanto, a decisão de trair é individual. Não é o casal que decide trair. É o traidor que atravessa a linha e vai à procura de outro.
Ao consultório de Luana Cunha Ferreira chegam casais felizes e infelizes, com vidas sexuais razoáveis e até muito boas. Trair não é — ao contrário do que se costuma dizer — um sinónimo de vida conjugal infeliz. “Recebo os três [traidor, traído e amante], individualmente ou em casal, e são pessoas iguaizinhas a nós. Isto pode acontecer a qualquer um. Claro que cada um de nós tem limites diferentes, ao nível da moralidade, ao nível da forma como nos apaixonamos ou desapaixonamos por outras pessoas; com o nível do desejo. Mas isto pode acontecer a muita, muita gente”, frisa.
Miguel e Marta procuraram a terapia. Aparentemente, tinham tudo para resultar. Ela é o protótipo da mulher bonita, nove anos mais nova do que ele, e até com mais vontade de ter relações sexuais. Os amigos sempre o acharam um homem de sorte. Ele também. O nascimento da segunda filha desequilibrou a casa. Marta andava mais ocupada com as crianças, com menos paciência para ele, deprimida por não conseguir amamentar. Ele focou-se no surf, hobby a que começou a dar mais valor do que à profissão. Um dia, conheceu uma pessoa durante uma viagem trabalho e descobriu uma data de coisas que não sabia sobre si. Afinal, também era capaz de pensar em estar com outra pessoa. Na realidade, até queria. Muito.
Quando regressou a casa, entre as fraldas e biberões de uma parentalidade que ele não desejara, e uma relação em que se sentia encurralado, decidiu que o escape talvez estivesse ali, naquela mulher, que não era tão bonita como a sua, mas parecia tão mais disponível. Sentado na sala, já a noite ia avançada, colocou também ele a vida em cima da mesa. Estavam lá, os livros de colorir da filha mais velha, o papel e caneta onde escrevia um poema para ser lido no batizado da filha mais nova e o computador. A televisão, sem som, fazia companhia. E ele mandou o primeiro e-mail. Tudo muito claro e carnal. Não havia frases de engate, nem mensagens subliminares deixadas no ar, muito menos sugestões do que aquela relação poderia um dia, eventualmente, vir a ser.
Todas as noites, era como se Miguel saísse do seu eu e entrasse num outro que afinal também era o dele. “O nascimento da segunda bebé foi difícil, porque já era difícil criar a mais velha e foi a Marta que se fartou de insistir para termos um segundo filho. Mas eu sentia um peso enorme e que não era a melhor altura.”
A mulher cedo percebeu que se passava alguma coisa, mas não o quê. Uma noite, em que por motivos diferentes nenhum dormia, sentou-se e quis falar com ele. Miguel não lhe revelou o que sentia. “Achei que o pior seria sempre contar.” Ela só descobriu quando, desconfiada, lhe acedeu à conta de e-mail. Um rol de mensagens sexuais, sem sugestões de que tivesse existido qualquer encontro, escondidas numa pasta com o nome X, davam-lhe uma versão diferente do marido. Era uma realidade que nunca pensou encontrar, mas também ela já tinha despertado a atenção para um homem mais velho que conheceu no Twitter. Só não percebia como é que isto acontecia se até era ela quem tinha vontade de ter sexo mais vezes. Discutiram violentamente nessa noite. Mas Marta decidiu que se nada tinha sido consumado era como se tudo tivesse sido um equívoco. “Até achei que fosse um alerta, que qualquer coisa boa pudesse surgir dali.” Era uma espécie de alerta.
A relação sobreviveu mais dois anos, com terapia, e com mais baixos que altos. Terminou, definitivamente, quando Marta teve relações sexuais, ocasionalmente, com outro homem. Nenhum dos dois estava disposto a continuar depois daquilo. O fim de um casamento que parecia perfeito chocou a família e os amigos, mas não os próprios. O desejo por outras pessoas foi apenas um sinal. Havia algo (muitos algos) que não estavam bem naquela relação. “Eram muitas questões, não vale a pena mexer sobre elas. Mas também tenho a certeza que cada um de nós acha que o problema está no outro. Eu — só agora — admito que, talvez, houvesse também um sinal de que algo não estava bem comigo.” Miguel ainda pensou em contar. Está convicto que a teria magoado menos. “Depende para que serve o contar. Se resulta de uma reflexão ou se é uma atitude que se refere ao próprio. É alguém que se coloca na posição do outro [o traído]? Ou alguém que tem medo de perder a outra pessoa?”, diz Pedro Frazão.
Talvez sabendo, a ex-mulher de Miguel não falasse hoje dele com tanta raiva. Marta define a guarda partilhada como complicada e, agora numa união de facto, aponta o dedo ao ex-marido. Afinal, ela considera que lhe deu tudo o que ele poderia desejar. Antes de assinarem os papéis, ainda fizeram uma maratona de um mês de relações sexuais, na esperança vã de que mais sexo lhes trouxesse a reconciliação. “O sexo é uma coisa muito primária, muito instintiva. É diferente de amar. O sexo não é o mais importante de uma relação. é muito importante, mas o mais importante é um conjunto de fatores que têm de ser tidos em conta, como planos de vida e objetivos”, defende a sexóloga Vânia Beliz.
DEPOIS DA CRISE, A BONANÇA

Nem a falta de sexo é a razão do problema. Muito menos a solução. É duro, mas é possível que se consiga obter algo bom de uma traição. Depois do choque da descoberta, entra-se numa fase parecida com o luto em que o choro e os gritos também são necessários. “Ainda estou para ver — e falo pela minha experiência clínica — uma traição que melhore essa relação. Pelo menos a nível imediato. Se calhar, não estavam a trabalhar na relação, ela/ele desinteressou-se, ela/ele envolveu-se com um terceiro, alguém descobriu ou contaram. Houve uma grande crise, grande, grande, e com terapia ou sem terapia, descobriram tantas coisas nessa crise que depois ultrapassaram e tornaram-se um casal melhor. Isso aí estou farta de ver. Agora, simplesmente ir ali buscar uma traição, buscar um terceiro, colocar o terceiro na relação, e isto vai melhorar a minha díade. Isso pode acontecer, mas na minha prática clínica não é muito comum, mas vejo muitos casais que acharam que era assim e fizeram com esse propósito ou aparentemente com esse propósito. E correu mal”, frisa Luana Cunha Ferreira.
Miguel foi um pouco com esse objetivo. Achou que uma relação extraconjugal platónica fosse uma solução. Magoou a ex-mulher, a amante e magoou-se a si próprio. É raro alguém sair incólume. “Só as pessoas que têm capacidade de compartimentar. A vida dupla gera muita ambiguidade. E mesmo quem consegue compartimentar a vida, também não consegue viver assim de forma tão compartimentada. Ninguém aguenta assim tanta ambiguidade. Acaba por ter de ser necessário decidir”, sustenta Pedro Frazão.
João escolheu a mulher. Miguel foi empurrado a escolher o divórcio, mas hoje, olhando para trás, teria tirado de cima da mesa da sala o computador. Ou teria chamado Marta ainda com o computador aberto em cima da mesa. O desfecho do casamento, provavelmente, seria o mesmo, mas não teria havido tanta mágoa e sofrimento. E tanta culpa. “O traidor tem sentimentos que, durante muito tempo, foram negligenciados. E tem um sentimento de culpa que não é um sentimento vulgar. É uma culpa muito pesada, muito paralisante, quase física”, afirma Luana Cunha Ferreira. É como se fosse o peso no corpo das ações.
É por isso que na terapia de casal deixou de existir uma barreira que distingue inocentes de culpados. “Já não temos aquela abordagem antiga, do perdão, em que o traidor tem que assumir as responsabilidades todas e pedir desculpa. E coitadinha da ‘vítima’, tem de ser acolhida em tudo e mais alguma coisa. Claro que tem de ser acolhida, mas temos que endereçar os sentimentos do traidor porque senão estamos a pôr uma espécie de penso rápido. E ou vai repetir, ou não vai conseguir lidar com estas emoções todas. É um sofrimento partilhado”, continua a especialista.

O mesmo acontece na Justiça. A Lei do Divórcio de 2008 veio trazer alterações ao direito de família, mas a mais significativa é o fim da culpa nos divórcios litigiosos. Uma figura que desapareceu do atual quadro legal. “Até aí, havia a culpa de um dos membros do casal, quando o divórcio não era por mútuo acordo, que violava os deveres conjugais. Só o podia requerer quem fosse o inocente. Esta figura foi abolida. Hoje, há o divórcio por acordo e sem consentimento, que substitui o litigioso mas sem a culpa”, explica Rui Alves Pereira, advogado especialista em direito de família. Os deveres conjugais, no entanto, continuam a existir: respeito, fidelidade, coabitação, cooperação, assistência. A diferença é que já ninguém pode apontar o dedo ao traidor, obrigá-lo a fazer um tipo de separação, e dizer-lhe que era ele o único responsável pelo fim. “Isto não significa que a traição não seja a principal causa dos divórcios. É quase sempre uma terceira pessoa que aparece na vida”, sublinha.
Essa terceira pessoa, tão diabolizada pela sociedade e, muitas vezes, pelo próprio traidor, não sai isenta da equação. É causa e consequência de um comportamento, de uma situação. “Quantas vezes não conhecemos pessoas assim. Pessoas que ficam à espera de ver se as coisas avançam ou não. Na esperança de ter uma relação afetiva e, às vezes, até acabam por ser enganadas pelos traidores, que até vivem razoavelmente bem com essa situação. Depende da maneira como todos encaramos isto. De como vemos os afetos e a sexualidade”, frisa Pedro Frazão.
Ana esteve nessa posição — que descreve como um limbo — três anos. Foi a outra. Apaixonou-se por um colega que sabia que era casado. Envolveram-se. Nunca se sentaram para conversar sobre o que faziam. Meias palavras deixavam cair a realidade. “Essa semana não posso porque vou de férias. O meu filho está doente, tenho de ir para casa. Não posso ficar a dormir.” Primeiro ela não o quis pressionar. Depois teve medo de o afastar. “Vivia em função dele. Só saía com grupos de amigas. Faço as contas à quantidade de rapazes que me apareceram à frente e aos quais não liguei. Estava demasiado apaixonada.” Um dia, tal como João, ele colocou a vida em cima da mesa e optou. Nunca mais ligou a Ana. Agora, que já lhe investigou a vida, percebeu que teve outras relações antes dela. É um dos tais compartimentados, que separa muito bem todas as faces da vida. “Para essas pessoas está tudo bem, vivem bem assim. É um estilo de vida, não é um problema”, diz Luana Cunha Ferreira.
Quando se divorciou, Miguel chegou a sair com a rapariga com quem trocou mensagens. Fora das redes sociais a relação não pegou. João diz que não hesitou na hora de optar. Mas houve um momento em que, de repente, “estava a gostar de duas pessoas”. Dividido entre uma relação de amizade e amor e a paixão que o libertava de tudo. Por breves momentos, numa contradição com tudo o que exprimia e o cérebro lhe dizia, colocou de novo a vida toda em cima da mesa. Continuar o casamento, a relação que tinha construído ao longo de tantos anos, ao pé de quem tinha projetado a vida, com quem dividia as contas, as responsabilidades. Ou escolher a terceira pessoa, por quem sentia um carinho especial. Recomeçar com aquela que, agora, era quem o fazia mais feliz. “Perguntei-me se era possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo.”
Há dois meses, num texto sobre o amor, aqui na E, o psicanalista Coimbra de Matos foi perentório: “Embora seja cultural, o ser humano é bastante exclusivo. Somos predominantemente monogâmicos, mesmo que seja uma monogamia serial, temos um parceiro de cada vez. É difícil gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. O que é possível é ter relações parciais.” Numa entrevista, um mês mais tarde repetia: “O amor é bastante exclusivo. Embora isso seja também uma coisa cultural. O homem é fundamentalmente monogâmico. E a mulher mais que o homem. Há um problema que também tenho estudado, a relação tem de ser criativa. Se vão sempre jantar ao mesmo restaurante, se vão sempre ao cinema, com os mesmos amigos, a relação torna-se monótona, chata. Tem de haver inovação, temos necessidade de coisas novas. A monotonia mata.”
Até aqui, traição era um verbo que se conjugava no masculino. Com a biologia e o machismo a darem carta branca aos homens. “É verdade que pomos a mão no meio das pernas de um homem e ele fica excitado. É biológico. Mas isto não quer dizer que ele esteja sempre com vontade. Durante a ditadura, que não foi assim há tanto tempo, era aceite que os homens pagassem para ter sexo”, frisa Vânia Beliz.
A duplicidade de critérios é tão antiga quanto o adultério. Os casos que chegam aos consultórios de terapia familiar dizem que a realidade está a mudar. Eles continuam a trair, elas estão a trair mais, ou a admitir mais que estão a trair. Mas não se está a trair menos. Mesmo que o casamento seja mais fácil de terminar e que a sociedade se esteja a adaptar às famílias recompostas (os meus, os teus e os nossos).
É perigoso, mas quase se pode dizer que trair faz parte de amar. Porque só trai quem, um dia, já amou. E é só quando se coloca a vida em cima da mesa — se pesam e juntam todas as componentes da vida — que se descobre quem se ama mais. Ou que tipo de vida se ama mais.
In Expresso

01.05.2017 às 13h00

Lola

Amei-te sem saberes



Amei-te sem saberes


No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes

amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo

desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar

à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas

a espera do silêncio

– Mia Couto, em “Raiz de Orvalho e outros poemas”. 
Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

Também Rita desconhecia se Pedro alguma vez imaginara que ela o sentia com tanta intensidade, com tamanha necessidade o que desenvolveu nela uma capacidade inédita de respeitar o silencio, de amaciar a espera, de idolatrar a distancia entre os dois!
Sabia tao bem...ouvir Pedro, de vez em quando, na candura da sua voz, na delicadeza do seu sorriso...
no desejo, jamais partilhado, de te-lo ali, nesse momento para lhe mostrar a irreprimível sensação do abraço fusional!
Pedro sabia abraçar como ninguém
e Rita nao podia mais que, frontalmente, confessar...
Adoro-te, my dear!


                                                Lola

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Baton vermelho



Baton vermelho


Se há cor que, decididamente, não se despega nunca do corpo de Rita é o vermelho! 

Desde miúda que lhe apraz a garra, a raiva, o inconformismo, a independência, a determinação e a liberdade que o vermelho lhe sugere e aporta!

Modelitos, carteiras, sapatos, um ou outro guarda chuva e adereços...sempre existem em vermelho no seu guarda roupa, pois essa é a cor que mais condiz com a sua forma de ser e estar na vida! Se tiver que optar entre varias cores...escolhe, inevitavelmente o vermelho, muito embora nao desconsidere outras cores, sobretudo as mais vivas e exuberantemente coloridas e invulgares que gosta de combinar religiosamente com o seu outfit!

Exceptuando os amores, Rita sempre gostou de ter tudo em dobro ...ou até mais! Por isso, là estavam numa caixa delicadamente colorida com florinhas do campo, um numero infindável de batons e vernizes que oscilavam entre o "rosa choque" e o "bordeaux", predominando, claro está, alguns tons de vermelho que Rita comprava de diferentes griffes francesas, tentando ajustar o vermelho vivo à sua cara de boneca!

Naquela tarde, lembra-se muito bem...tinha colorido os seus lábios com um baton Christian Dior que além do hidratante acetinado, tinha um tom que nao só realçava o seu rosto abolachado mas...e sobretudo, coloria o seu sorriso franco e aberto quando soltava uma gargalhada!




Entrara há pouco na sala de trabalho para ultimar uns documentos! Nao tardou muito Pedro chegou, nao porque Rita estava là... nao porque soubesse que Rita o tinha como companhia desejável e completamente insubstituível...nao porque...

Rita nem sequer sabia! Também nao era importante...Pedro sentara-se, de imediato, em frente a si e começaram a conversar do trabalho e de algumas novidades da imprensa do qual, muitas vezes, trocavam pontos de vista,  afortunadamente, nem sempre coincidentes!

E naquela manhã era mais um momento de alegre e entendivel dialogo entre Pedro e Rita que há muito sabiam gostar da companhia um do outro, sem no entanto, nunca o terem expresso por palavras...pois afinal as palavras,nestes e noutros casos, ficam a dever muito aos olhares!

Rita reparou...Pedro olhava-a no seu jeito de pessoa agradavelmente ternurento e sempre delicadamente estonteante na elegancia dos seus gestos...na sua voz macia de encanto que decididamente seduziam Rita, sempre muito atenta porque era uma  apreciadora da meiguice enorme que Pedro transportava em si e que, provavelmente, mulher alguma, antes dela, reconhecera de um modo tão profundamente sentido, como ela o vivia!

Pedro era surpreendentemente, um ser humano demasiado bonito para a deixar indiferente desde que, num dia de setembro ido, tinha chegado à empresa...sentindo-se perdido no meio de tanta gente!

E foram-se aproximando em diálogos...misturando sorrisos sempre que se encontravam! Como naquela manhã de um sol radioso que trespassava as vidraças gigantes da sala, ...quando Pedro a olhou e lhe disse com uma candura que ainda hoje a faz sorrir de saudade...

O teu baton nao marca, quando dàs um beijo?
Rita parou um pouco o seu pensamento, sorriu e disse: "às vezes..."

Pedro nunca desconfiou...mas, nesse preciso momento, Rita se interditos nao houvera, dar-lhe-ia um grande, um enorme beijo vermelho que, por certo, marcaria o corpo e a alma de Pedro para toda a sua vida!

Porém, como a vida se vai enrolando de momentos inefáveis como este...

... Rita nao adormeceu o sonho de um dia dar um beijo de baton vermelho...que Pedro nunca, mas mesmo nunca mais tenha vontade de apaga-lo da sua cara adoravelmente morena!

Porquê? E que...



Adoro-te, my dear!




                                               Lola

terça-feira, 25 de abril de 2017

E o coração está seco…






E o coração está seco…


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)

                                              Lola

Menina da Siria




Menina da Síria

Não te rendas...

Ainda que confundas a maquina fotográfica
com uma arma
e essa maquina, sem o saberes,
 te traga até nos
Ainda que os teus olhos nao sequem
as lágrimas incompreensíveis
Ainda que nao entendas
a dor deste mundo
nem tenhas pedido para nascer
nem escolhido o espaço para viver
nem a guerra para te amedrontar...

Nao te rendas, menina!


Ainda que te sejam estranhos conceitos como

 ética, respeito, pessoa e dignidade
Ainda que a inocência seja ignorada
os teus labios se comprimam
a tua dor indefinivel
tu sejas um mero numero de estatística
perdida num mundo de interesses
que nao sao os teus!
Ainda que  persista a banalização do mal
que tu nao entendes mas sofres duramente
Ainda que te desmereçam
pela amargura dos gritos das armas
pela expulsão numa vida errante
por te prenderem ao campo de refugiados
onde nao podes correr e brincar 
na liberdade de menina sonhadora!
Ainda que te tenham desabrigado
roubado futuros de sorriso
castrado o infinito
desautorizado o teu ser...
perturbado o teu semblante angelico
usurpado a tua felicidade
desprendendo-te de mundos a que tens direito
Por favor...


Nao te rendas, minha menina!


Mesmo de braços levantados

assustada, temerosa, confusa, perplexa
continuas no meu coraçao
que exige a tua serenidade
o teu olhar soalheiro
o teu amanhecer para um dia renovado!

Sabes? 
Aqui em Portugal celebra-se, hoje, a Liberdade
Mas o que eu queria mesmo era envolver-te nos meus braços
vestir-te com os meus abraços
trazer-te para minha casa
e dar-te um enorme sorriso de esperança...

Mas 
nao sei, sequer, o teu nome,
 nem onde te encontras a sofrer
nem o que sentes...nem sequer 
o que jà adormeceu em ti!
Por isso te peço com muita humildade:

Nao te rendas, minha querida!

Levanta os braços
Mas desta vez para tirar uma a uma 
as estrelinhas brilhantes que ves no céu
quando o silencio estilhaçar definitivamente a guerra 
Eu acredito e lutarei por um mundo colorido
em que a esperança nao envelheça
a tua dor nao mais floresça
o teu medo nao se perpetue
e o teu rosto nao paralise pelas agruras
de uma vida que nao escolheste nem mereces!
Por isso, minha querida menina
quero dizer-te
num abraço determinado que...

Acredito na utopia de um porvir
em que os teus olhos brilhem de ... 
... um enorme azul de MAR!


Algumas notas acerca da imagem:
A imagem foi postada no Twitter pela fotógrafa Nadia Abu Shaban, que vive em Gaza (território palestino que faz fronteira com Egito e Israel) e compartilhada por milhares de pessoas nas redes sociais durante a semana passada e chamou a atenção pela expressão da menina.
A foto da menina síria Adi Hudea, de quatro anos, foi registrada em dezembro de 2014 pelo fotógrafo turco Osman Sagirli no campo de refugiados de Atmeh, localizado na fronteira da Síria com a Turquia. 
Ao  aproximar-se dela com o equipamento fotográfico, a menina levantou os braços acreditando que a câmara seria uma metralhadora, por isso, na foto, Adi aperta os lábios entre os dentes e paralisa o rosto.
A menina é uma das milhares de crianças sírias que teve a família destroçada pela guerra. Perdeu o pai no atentado de Hama e vive com a mãe e três irmãos no acampamento.
Ob fotografo disse: "Eu usei uma lente de telefoto e ela pensou que fosse uma arma. Depois de eu tirar a foto,   olhei para a criança e percebi que ela  estava assustada, porque ela mordeu os lábios e levantou as mãos. Normalmente, crianças correm, escondem os rostos ou sorriem quando vêem uma câmara"

 Lola

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Gostava de te conhecer


Gostava de te conhecer

Um dia Rita ouviu, por acaso, uma conversa acerca do desempenho profissional de Pedro numa reunião de trabalho là na empresa!
Curiosa, como ela própria se definia, e porque era a primeira vez que alguém tecia considerações sobre ele, prestou  uma meticulosa atenção, até porque sem o saber, Pedro jà galvanizara a sua vontade de encontro, o seu desejo, há muito adormecido, de conhecer, descomprometidamente, alguém que lhe suportasse o sono e lhe colorisse os sonhos de si revestidos de  uma neblina exageradamente desconcertante!
Rita gostava muito da sua profissão ao serviço do Outro! 
E, por isso mesmo, nao era raro cruzar-se com outras formas de entender o mundo e a vida e isso garantia-lhe uma criatividade emergente pouco ou nada compatível com uma rotina monocórdica de que ela nunca fora adepta!
Pedro chegara precisamente com esse quê de sedução no mistério que, por timidez ou por opção consciente, nao se mostrava numa possível transparência existencial!
E,  se de inicio, Rita achara estranho esse véu de diferença que protegia Pedro, agora entendia que cada um pode e deve resguardar o seu eu de potenciais intromissões que desvirtuam modos de vida que se pretendem de saudável recato! 
Depois...
porque nao compreender a admirável busca do encontro com o outro naquilo que para Rita era, ainda, de profundo desconhecimento?
porque nao desejar a agradável procura do encanto que, silenciosamente, Pedro iria, por certo, desvelando? 
 Hoje, porém, Rita tinha a convicção de que... 
... era mesmo bom desconhecer-te, Pedro! 
Isso evita a consciência luzidia dos potenciais entraves, a visao clara e inevitavelmente controversa dos interditos entre nos, o promissor desencanto de uma distancia que podendo tardar, adormece a esperança e ludibria a utopia do possível!
Era inevitável nao acreditar que tanto Rita como Pedro transportavam, cada um por si ,pedaços de vida que o outro ignorava completamente, um tempo e percursos de existência nao felizmente partilhada e muito menos comunicada!
Gostava de te conhecer, Pedro, 
porém...desconheço-te e isso, talvez permita que eu possa querer-te sempre de uma forma solitária, intima e decidida em palavras ainda nao dialogadas e, muito provavelmente, nunca partilháveis!
Sinto saudade de futuros contigo! Por isso...
...O que eu quero mesmo é...
 desconhecer-te, Pedro!
Porquê?
Porque te adoro, my dear?


                                               Lola

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O Teu Riso


O Teu Riso


Tira-me o pão, se quiseres, 
tira-me o ar, mas 
não me tires o teu riso. 

Não me tires a rosa, 

a flor de espiga que desfias, 
a água que de súbito 
jorra na tua alegria, 
a repentina onda 
de prata que em ti nasce. 


A minha luta é dura e regresso 

por vezes com os olhos 
cansados de terem visto 
a terra que não muda, 
mas quando o teu riso entra 
sobe ao céu à minha procura 
e abre-me todas 
as portas da vida. 


Meu amor, na hora 

mais obscura desfia 
o teu riso, e se de súbito 
vires que o meu sangue mancha 
as pedras da rua, 
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos 
como uma espada fresca. 


Perto do mar no outono, 

o teu riso deve erguer 
a sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, 
quero o teu riso como 
a flor que eu esperava, 
a flor azul, a rosa 
da minha pátria sonora. 


Ri-te da noite, 

do dia, da lua, 
ri-te das ruas 
curvas da ilha, 
ri-te deste rapaz 
desajeitado que te ama, 
mas quando abro 
os olhos e os fecho, 
quando os meus passos se forem, 
quando os meus passos voltarem, 
nega-me o pão, o ar, 
a luz, a primavera, 
mas o teu riso nunca 
porque sem ele morreria. 


Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda 


Rita nunca deixará de rir 
para (e com) Pedro 
como  fez na ultima conversa 
que tiveram! 

Porquê?

Então já te esqueceste que
te adoro, my dear?


                                            Lola